Grave. Ela era sempre grave.
E gostava assim, achava que dava um ar de mistério, de importância.
Na verdade não sabia que era por isso que gostava, mas gostava.
O máximo de cumplicidade que se conseguia dela era um riso no canto da boca.
Gargalhada, em casa a sós, lembrando alguma passagem engraçada. Só.
Sempre um comentário sarcástico na ponta da língua. Um gosto amargo pelas palavras.
Quando alguém não sabia se ela falava sério ou era ironia, sentia-se melhor.
Irônica. Gostava da palavra.
Agradável mesmo, não era. Mas era bonita.
E sabia que as pessoas bonitas têm um poder que vem exclusivamente da beleza.
Bela e grave. Sarcástica e irônica.
E triste. Quase sempre triste sem saber porquê.
Criava círculos de amigos ao redor, não amava nenhum deles sinceramente. Talvez um ou dois.
Pareciam todos bobos diante de tanta gravidade. Bobos da sua minicôrte.
Viam que ela tinha algo especial, mas ninguém sabia exatamente o quê.
Ninguém conseguia entender o que ela tinha de diferente, será o quê?
Uns cansavam desse mistério outros se encantavam e a turba de bobos estava em constante mudança.
Ela permanecia igual, grave. Cheia de uma importância que ninguém sabia de onde vinha.
Mas aconteceu que um dia começou a ficar feia, não se sabe porquê.
Talvez fosse a pele, o cabelo, talvez os olhos, talvez fosse o tempo.
O certo é que ela ficou feia e só. Porque gravidade sem beleza não tem mistério algum. Os bobos encontraram pessoas mais irônicas, sarcásticas e bonitas pra seguir.
Enfim aconteceu o que ela temeu a vida toda.
O mistério acabou e ela era simplesmente feia e triste.
terça-feira, 31 de julho de 2007
segunda-feira, 30 de julho de 2007
Oração à santa periquita
Ai, minha santa periquita, santa dos casos perdidos e transas urgentes.
Me ajude. Preciso de um homem pra me fazer um carinho, me levar pra jantar, me beijar na porta de casa, enfiar a mão por baixo da saia, beliscar meus peitinhos, trepar a noite inteira, que faça serviço completo e mande flores no dia seguinte... dá pra ser? Ah, tá em falta.
Santa periquita, santa dos casos perdidos e transas urgentes me arruma pelo menos um rapaz bem servido de pinto, que seja rígido, bem disposto e que não passe mal com sexo oral, se vier com cafuné antes de dormir é perfeito. Ah... não tem também?
Olha minha santa, vou facilitar as coisas pra senhora. Me arruma qualquer coisa com pinto, nem precisa ser tão rígido, que a gente dá um jeito por aqui.
Amém!
Me ajude. Preciso de um homem pra me fazer um carinho, me levar pra jantar, me beijar na porta de casa, enfiar a mão por baixo da saia, beliscar meus peitinhos, trepar a noite inteira, que faça serviço completo e mande flores no dia seguinte... dá pra ser? Ah, tá em falta.
Santa periquita, santa dos casos perdidos e transas urgentes me arruma pelo menos um rapaz bem servido de pinto, que seja rígido, bem disposto e que não passe mal com sexo oral, se vier com cafuné antes de dormir é perfeito. Ah... não tem também?
Olha minha santa, vou facilitar as coisas pra senhora. Me arruma qualquer coisa com pinto, nem precisa ser tão rígido, que a gente dá um jeito por aqui.
Amém!
sexta-feira, 27 de julho de 2007
Ela é bamba, ela é bamba...
Olhava aquele conga e pensava, eu quero um bamba. Porque eu sou a menina do conga se eu nasci pra ser bamba? Sabia, no fundo, que tinha muito menos do que merecia. E uma timidez de se saber assim.
Aprendera desde sempre a estar satisfeita com o que tinha. Afinal, comida nunca faltou. Mas conga? Estava sempre ouvindo que não podia ter tudo que queria, o mundo é assim mesmo, é bom você se acostumar. Mas conga? Era mais do que podia aguentar.
Numa das noites em que chorava pelo conga teve uma idéia, uma dessas idéias boas que nos fazem dormir tranquilos. Os dias do conga estavam contados.
No dia seguinte foi feliz e saltitante pra escola, cantando a musiquinha que tinha inventado pra essas ocasiões, eu vou, eu vou, pra escola agora eu vou, parará tim bum, parará tim bum, eu vou, eu vou, eu vou, eu vou... Tinha tudo planejado e a certeza que aquele era o último dia do conga tornava o suplício de usá-lo quase em prazer. O próximo passo era conseguir um bamba.
Durante toda a aula distraía-se com seus planos para o conga, seu futuro com o bamba e sentia que sua vida seria bem mais fácil daquele dia em diante, finalmente ia ter o que merecia. A professora elogiou sua tarefa, parabéns não tem nenhum erro. E ela sentia-se mais que nunca a menina do bamba.
Na hora do recreio comeu a merenda bem rápido e foi pro parquinho, subiu no trepa-trepa que era o seu brinquedo preferido, se perdeu e se achou várias vezes naquele labirinto em que se brincava sozinho. Antes do recreio acabar queria brincar na gangorra, o segundo brinquedo preferido. Encontrou uma colega partidária da gangorra, subiram e desceram e sentiram aquele frio na barriga e riram daquele jeito que se ri quando se sobe e desce na gangorra, riso solto que faz cócegas no nariz. E o sinal tocou porque era hora de voltar pra aula. Voltou correndo pra sala naquela euforia de quem acabou de descer da gangorra. Tinha esquecido do conga.
Enquanto a professora falava sobre o b com a, ba, b com e, be, uma dessas coisas bobas e óbvias ela lembrou-se dos planos. E percebeu sem querer que o conga tinha sido seu companheiro de parquinho pela última vez.
A hora de ir embora se aproximava e a professora c com a, ca, c com e, ce... e ela pensando no que faria com o conga. Seu coração acelerava.
Deu o sinal e todos saíram correndo, menos ela, porque ela carregava o peso da sua resolução. Decisões não são fáceis de tomar, mesmo quando necessárias, além do mais ainda não estava acostumada a decidir nada. Respirou fundo e foi.
Foi embora sozinha, a casa era perto e já aprendera o caminho há um certo tempo. Já tinha tudo tramado, ia abandonar o conga no terreno baldio perto de casa e falar pra mãe que o tinham roubado. O terreno era cheio de mato, ninguém nunca ia descobrir. Estava satisfeita com sua idéia.
Andou os últimos passos do conga até o destino final, apoiou o pé na calçada pra desamarrar o cadarço, puxou o lacinho pronta pra se livrar daquele peso e, e... olhou pra ele e, e... coitado. Não conseguia imaginá-lo ali sozinho, sem um pé pra calçá-lo, no meio do mato, no escuro. Pobre conga, só tinha a ela. Ela não gostava mesmo dele, mas... E o bamba? Enquanto tivesse o conga nunca teria o bamba. Que difícil decidir. Queria o bamba, merecia o bamba, fôra feita para o bamba, optava pelo bamba. Desatou os cadarços e descalçou o conga que ficou lá, murchinho. Correu até em casa, ofegante.
No portão lembrou-se que teria que explicar pra mãe sobre o fim do conga, a mentira estava na ponta da língua. A mãe ia ficar preocupada com o assalto, você está bem, não levaram mais nada? Será que ia acreditar?
Não gostava de mentir e ia se sentir mal se a mãe ficasse preocupada, era assim, sempre culpada. Se a mãe não acreditasse então, ia morrer de vergonha, sem contar que ia ficar de castigo. Pensava olhando o portão fechado. Pensava e pensava e.
Voltou correndo e torcendo pro conga ainda estar lá, de repente parecia que ele ia sumir. Correu o mais rápido possível e quando chegou no terreno baldio viu, com o maior alívio que já tinha sentido, que ele continuava lá. Nem calçou o conga feio, abraçou-o e voltou pra casa descalça e feliz, que afinal não era menina de abandonar o conga assim.
O bamba? Bem, tanta gente tinha um bamba sem merecer e ela sabia que merecia um bamba mais do que ninguém. Enquanto ia pra escola saltitante e cantante pensava nisso e se sentia satisfeita por ter classe de bamba mesmo calçando conga.
Aprendera desde sempre a estar satisfeita com o que tinha. Afinal, comida nunca faltou. Mas conga? Estava sempre ouvindo que não podia ter tudo que queria, o mundo é assim mesmo, é bom você se acostumar. Mas conga? Era mais do que podia aguentar.
Numa das noites em que chorava pelo conga teve uma idéia, uma dessas idéias boas que nos fazem dormir tranquilos. Os dias do conga estavam contados.
No dia seguinte foi feliz e saltitante pra escola, cantando a musiquinha que tinha inventado pra essas ocasiões, eu vou, eu vou, pra escola agora eu vou, parará tim bum, parará tim bum, eu vou, eu vou, eu vou, eu vou... Tinha tudo planejado e a certeza que aquele era o último dia do conga tornava o suplício de usá-lo quase em prazer. O próximo passo era conseguir um bamba.
Durante toda a aula distraía-se com seus planos para o conga, seu futuro com o bamba e sentia que sua vida seria bem mais fácil daquele dia em diante, finalmente ia ter o que merecia. A professora elogiou sua tarefa, parabéns não tem nenhum erro. E ela sentia-se mais que nunca a menina do bamba.
Na hora do recreio comeu a merenda bem rápido e foi pro parquinho, subiu no trepa-trepa que era o seu brinquedo preferido, se perdeu e se achou várias vezes naquele labirinto em que se brincava sozinho. Antes do recreio acabar queria brincar na gangorra, o segundo brinquedo preferido. Encontrou uma colega partidária da gangorra, subiram e desceram e sentiram aquele frio na barriga e riram daquele jeito que se ri quando se sobe e desce na gangorra, riso solto que faz cócegas no nariz. E o sinal tocou porque era hora de voltar pra aula. Voltou correndo pra sala naquela euforia de quem acabou de descer da gangorra. Tinha esquecido do conga.
Enquanto a professora falava sobre o b com a, ba, b com e, be, uma dessas coisas bobas e óbvias ela lembrou-se dos planos. E percebeu sem querer que o conga tinha sido seu companheiro de parquinho pela última vez.
A hora de ir embora se aproximava e a professora c com a, ca, c com e, ce... e ela pensando no que faria com o conga. Seu coração acelerava.
Deu o sinal e todos saíram correndo, menos ela, porque ela carregava o peso da sua resolução. Decisões não são fáceis de tomar, mesmo quando necessárias, além do mais ainda não estava acostumada a decidir nada. Respirou fundo e foi.
Foi embora sozinha, a casa era perto e já aprendera o caminho há um certo tempo. Já tinha tudo tramado, ia abandonar o conga no terreno baldio perto de casa e falar pra mãe que o tinham roubado. O terreno era cheio de mato, ninguém nunca ia descobrir. Estava satisfeita com sua idéia.
Andou os últimos passos do conga até o destino final, apoiou o pé na calçada pra desamarrar o cadarço, puxou o lacinho pronta pra se livrar daquele peso e, e... olhou pra ele e, e... coitado. Não conseguia imaginá-lo ali sozinho, sem um pé pra calçá-lo, no meio do mato, no escuro. Pobre conga, só tinha a ela. Ela não gostava mesmo dele, mas... E o bamba? Enquanto tivesse o conga nunca teria o bamba. Que difícil decidir. Queria o bamba, merecia o bamba, fôra feita para o bamba, optava pelo bamba. Desatou os cadarços e descalçou o conga que ficou lá, murchinho. Correu até em casa, ofegante.
No portão lembrou-se que teria que explicar pra mãe sobre o fim do conga, a mentira estava na ponta da língua. A mãe ia ficar preocupada com o assalto, você está bem, não levaram mais nada? Será que ia acreditar?
Não gostava de mentir e ia se sentir mal se a mãe ficasse preocupada, era assim, sempre culpada. Se a mãe não acreditasse então, ia morrer de vergonha, sem contar que ia ficar de castigo. Pensava olhando o portão fechado. Pensava e pensava e.
Voltou correndo e torcendo pro conga ainda estar lá, de repente parecia que ele ia sumir. Correu o mais rápido possível e quando chegou no terreno baldio viu, com o maior alívio que já tinha sentido, que ele continuava lá. Nem calçou o conga feio, abraçou-o e voltou pra casa descalça e feliz, que afinal não era menina de abandonar o conga assim.
O bamba? Bem, tanta gente tinha um bamba sem merecer e ela sabia que merecia um bamba mais do que ninguém. Enquanto ia pra escola saltitante e cantante pensava nisso e se sentia satisfeita por ter classe de bamba mesmo calçando conga.
quarta-feira, 25 de julho de 2007
des/combina
Ah... você fuma?
Às vezes.
Não combina com você.
É mesmo?
Calaram. Um olho no olho do outro e viram quanto não se conheciam.
Talvez não combinasse mesmo, mas o fato é que fazia coisas que não combinavam com ela. Buscava descombinações, ávida. Ele também não combinava. Ávida.
Ele, por outro lado, era todo combinado. Mais por hábito que por talento, no fundo era meio descompassado. Ela não combinava com ele e, no entanto. Outras tantas combinavam e, no entanto.
Olha como minha mão tá gelada.
Assim fico com calor.
Nada combinava e, no entanto, ela se abanava.
Às vezes.
Não combina com você.
É mesmo?
Calaram. Um olho no olho do outro e viram quanto não se conheciam.
Talvez não combinasse mesmo, mas o fato é que fazia coisas que não combinavam com ela. Buscava descombinações, ávida. Ele também não combinava. Ávida.
Ele, por outro lado, era todo combinado. Mais por hábito que por talento, no fundo era meio descompassado. Ela não combinava com ele e, no entanto. Outras tantas combinavam e, no entanto.
Olha como minha mão tá gelada.
Assim fico com calor.
Nada combinava e, no entanto, ela se abanava.
terça-feira, 24 de julho de 2007
Época de milho
Lembro que tinha a época do milho. Em determinada época do ano a horta se enchia milagrosamente de altos pés de milho e suas bonecas. Pra quem não sabe o que é boneca, são as espigas ainda novas que têm o cabelo comprido e sedoso. Eu amava as bonecas, tinha boneca ruiva, castanha e loira, que eu gostava mais porque combinava com meu cabelo. E minha vó gritando, não arranca todas espigas, menina! Quando a gente já tava enjoando das bonequinhas, era porque estava chegando a hora de colher as espigas e começar uma nova fase. A fase de comer milho.
E tinha milho de tudo que é jeito. Milho assado no fogão de lenha, cozido, refogado, bolo de milho assado na folha de bananeira, curau, pamonha e sei lá mais o quê. Sei que minha vó passava o dia ralando milho pra fazer curau, pamonha e bolo. E não tinha processador não, era ralador mesmo, um que meu avô tinha feito anos atrás, que se pegasse o dedo... ai.
Esse curau que tem no carrinho de milho de rua não tem nada a ver com aquele, feito com milho verde de verdade e leite direto da teta da vaca. Aquele sim era bom, e o cheiro eu nunca vou esquecer. A nata que se formava em cima era motivo de diversão, a gente fazia um buraquinho com a colher e soprava até fazer uma bolha que crescia, crescia... até explodir e sujar a mesa. E minha vó, toma cuidado que tá quente, vão se queimar. Não toma curau quente e água gelada que dá dor de barriga. O resto do curau que a gente não aguentava tomar ia pra geladeira pra endurecer, depois ela cortava em pedaços. Eu nunca comia depois de gelado, só gostava enquanto tava quente.
A gente enchia o saco da vó pra assar uns milhos o dia inteiro, ela sempre ocupada com os afazeres da casa e do milho botava a molecada pra correr, mas depois colocava umas espigas de surpresa na brasa do fogão e chamava a gente quando já tava quase pronto, aí era só passar manteiga e assoprar um pouco pra esfriar, nham nham.
Mas não era só o milho que tinha época, tinha a época da jabuticaba que coincidia com a da pitanga, a época da manga, da goiaba, do abacate e assim por diante. Todas épocas eram boas, quando a gente estava enjoando do milho ele acabava e começava outra época, a da jabuticaba por exemplo. E nós migrávamos da horta e suas bonecas pro poleiro do pé de jaboticaba onde passávamos nossos dias.
Era assim que a gente percebia que o ano estava passando, nossa já chegou a época da manga! Vamos comer manga verde com sal que ela demora muito pra madurar. E a época da manga coincidia com a época do natal em que os leitõezinhos eram o prato principal, eu sofria com os gritos dos pobres animais assassinados e jurava que não ia comer esse ano, mas todo ano eu comia porque sempre adorei um leitão assado.
O tempo passava mas a gente não tinha pressa, aproveitava cada época até enjoar e quando enjoava começava outra.
Hoje tem curau todo dia em qualquer esquina, tem manga no supermercado o ano inteiro, assim como goiaba e tudo o mais. Não sei como fizeram pra acabar com as épocas, mas foi uma pena. Hoje tem tudo que eu gostava o ano inteiro, mas eu não como mais nada. Hoje não vejo mais boneca de milho. Hoje minha vó não levanta mais da cama, nem sabe muito bem em que época estamos. Hoje eu penso que não sei como será ter meus filhos, se o que eu sabia sobre as épocas não vale mais.
E tinha milho de tudo que é jeito. Milho assado no fogão de lenha, cozido, refogado, bolo de milho assado na folha de bananeira, curau, pamonha e sei lá mais o quê. Sei que minha vó passava o dia ralando milho pra fazer curau, pamonha e bolo. E não tinha processador não, era ralador mesmo, um que meu avô tinha feito anos atrás, que se pegasse o dedo... ai.
Esse curau que tem no carrinho de milho de rua não tem nada a ver com aquele, feito com milho verde de verdade e leite direto da teta da vaca. Aquele sim era bom, e o cheiro eu nunca vou esquecer. A nata que se formava em cima era motivo de diversão, a gente fazia um buraquinho com a colher e soprava até fazer uma bolha que crescia, crescia... até explodir e sujar a mesa. E minha vó, toma cuidado que tá quente, vão se queimar. Não toma curau quente e água gelada que dá dor de barriga. O resto do curau que a gente não aguentava tomar ia pra geladeira pra endurecer, depois ela cortava em pedaços. Eu nunca comia depois de gelado, só gostava enquanto tava quente.
A gente enchia o saco da vó pra assar uns milhos o dia inteiro, ela sempre ocupada com os afazeres da casa e do milho botava a molecada pra correr, mas depois colocava umas espigas de surpresa na brasa do fogão e chamava a gente quando já tava quase pronto, aí era só passar manteiga e assoprar um pouco pra esfriar, nham nham.
Mas não era só o milho que tinha época, tinha a época da jabuticaba que coincidia com a da pitanga, a época da manga, da goiaba, do abacate e assim por diante. Todas épocas eram boas, quando a gente estava enjoando do milho ele acabava e começava outra época, a da jabuticaba por exemplo. E nós migrávamos da horta e suas bonecas pro poleiro do pé de jaboticaba onde passávamos nossos dias.
Era assim que a gente percebia que o ano estava passando, nossa já chegou a época da manga! Vamos comer manga verde com sal que ela demora muito pra madurar. E a época da manga coincidia com a época do natal em que os leitõezinhos eram o prato principal, eu sofria com os gritos dos pobres animais assassinados e jurava que não ia comer esse ano, mas todo ano eu comia porque sempre adorei um leitão assado.
O tempo passava mas a gente não tinha pressa, aproveitava cada época até enjoar e quando enjoava começava outra.
Hoje tem curau todo dia em qualquer esquina, tem manga no supermercado o ano inteiro, assim como goiaba e tudo o mais. Não sei como fizeram pra acabar com as épocas, mas foi uma pena. Hoje tem tudo que eu gostava o ano inteiro, mas eu não como mais nada. Hoje não vejo mais boneca de milho. Hoje minha vó não levanta mais da cama, nem sabe muito bem em que época estamos. Hoje eu penso que não sei como será ter meus filhos, se o que eu sabia sobre as épocas não vale mais.
sexta-feira, 20 de julho de 2007
Calendário
Continuo medindo o tempo pelo número de baratas mortas pelo chão e seu grau de decomposição.
Inseticida?
Ia perder a noção do tempo, mata tantas a cada vez. Ou teria que varrê-las de quando em quando.
Assim já me acostumei, cada barata uma chinelada. Três a quatro chineladas por noite.
E durante o dia elas se divertem com a gata.
Inseticida?
Ia perder a noção do tempo, mata tantas a cada vez. Ou teria que varrê-las de quando em quando.
Assim já me acostumei, cada barata uma chinelada. Três a quatro chineladas por noite.
E durante o dia elas se divertem com a gata.
Não se pode afirmar.
Estou achando muito interessante a apuração dos fatos no acidente da TAM. Todas as digníssimas autoridades que se pronunciaram até agora concordam em uma coisa: não se pode afirmar nada antes de concluídas as investigações.
No entanto, cada um tratou de tirar o seu da reta.
Não se pode afirmar nada antes de concluir as investigações, mas a pista de congonhas estava em plenas condições de funcionamento.
Não se pode afirmar nada antes de concluir as investigações, mas o airbus da TAM estava em plenas condições de uso, apesar do reversor direito não estar funcionando.
Não se pode afirmar nada antes de concluir as investigações, mas esse acidente foi uma fatalidade que nada teve a ver com a crise aérea do país.
Não se pode afirmar nada e, no entanto afirma-se muito.
E o assessor Marco Aurélio Garcia festejando o defeito do avião, pensando e demonstrando: se foderam! tomaram no cú! tirei o meu da reta!
Levando em consideração tudo que eu ouvi até agora, a única coisa que se pode afirmar é que cada um vai lutar até o fim pra tirar o seu da reta também. Não interessa saber quais os fatores que contribuíram pro acidente, não interessa dissecar o problema porque a gente ia descobrir que sobra culpa pra todo mundo e isso pediria uma solução drástica. Importante é tirar da reta e garantir o emprego, a próxima eleição, os altos salários. E as mais de 200 vidas perdidas? Bom, eles já foram mesmo...
Pois é, eles se foram e a maioria deles nem poderá ser identificado ou sepultado inteiro.
Qual o nível de endurecimento dessas pessoas que continuam se negando a admitir a crise e resolvê-la? Quantos precisam ser carbonizados, desmantelados, triturados e nem quero pensar mais o quê, pra se pensar em soluções que visem não o lucro, não votos, mas as vidas das pessoas?
Sei que são muitas perguntas e ainda não se pode afirmar nada, mas gostaria que aparecesse alguma resposta séria em algum momento.
No entanto, cada um tratou de tirar o seu da reta.
Não se pode afirmar nada antes de concluir as investigações, mas a pista de congonhas estava em plenas condições de funcionamento.
Não se pode afirmar nada antes de concluir as investigações, mas o airbus da TAM estava em plenas condições de uso, apesar do reversor direito não estar funcionando.
Não se pode afirmar nada antes de concluir as investigações, mas esse acidente foi uma fatalidade que nada teve a ver com a crise aérea do país.
Não se pode afirmar nada e, no entanto afirma-se muito.
E o assessor Marco Aurélio Garcia festejando o defeito do avião, pensando e demonstrando: se foderam! tomaram no cú! tirei o meu da reta!
Levando em consideração tudo que eu ouvi até agora, a única coisa que se pode afirmar é que cada um vai lutar até o fim pra tirar o seu da reta também. Não interessa saber quais os fatores que contribuíram pro acidente, não interessa dissecar o problema porque a gente ia descobrir que sobra culpa pra todo mundo e isso pediria uma solução drástica. Importante é tirar da reta e garantir o emprego, a próxima eleição, os altos salários. E as mais de 200 vidas perdidas? Bom, eles já foram mesmo...
Pois é, eles se foram e a maioria deles nem poderá ser identificado ou sepultado inteiro.
Qual o nível de endurecimento dessas pessoas que continuam se negando a admitir a crise e resolvê-la? Quantos precisam ser carbonizados, desmantelados, triturados e nem quero pensar mais o quê, pra se pensar em soluções que visem não o lucro, não votos, mas as vidas das pessoas?
Sei que são muitas perguntas e ainda não se pode afirmar nada, mas gostaria que aparecesse alguma resposta séria em algum momento.
Assinar:
Postagens (Atom)