sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O banheiro

A funcionária se levantou de sua mesa e foi ao banheiro pela primeira vez no dia. A sua supervisora anotou: Saída às 16:28/ Volta às 16:34.
A funcionária se levantou de sua mesa e se dirigiu ao banheiro pela segunda vez no dia. A sua supervisora anotou: Saída às 17:58... - Porque você não usa esse banheiro aqui? É mais próximo. A funcionária justificou - É que aproveito para beber água quando vou ao banheiro. Volta às 18:05.
Às 18:34 a supervisora chamou a funcionária até a sua mesa. - E se você deixar uma garrafa de água no frigobar? Fica mais perto pra você. A funcionária disse que aproveitava a ida ao banheiro para pegar um café, ou uma bolachinha pra enganar a fome.
Às 19:37 a supervisora trouxe uma bandeja com alimentos: frutas, bolachas e chocolates. E bebidas: água com gás e sem gás, suco e refrigerante diet. Trouxe o frigobar para mais perto e abasteceu-o com os alimentos e bebidas - Olha, vou deixar o frigobar cheio e bem pertinho de você. Não é bom?
A funcionária gostou - Puxa! Não tinha pensado nisso, ótima idéia. E o penico?

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Breve esclarecimento

Às vezes penso que deveria ser mais clara. Escrevo confusamente, atropeladamente e sem vírgulas. Ou confusamente, atropeladamente, cheia de vírgulas e dois pontos.
Sim, sei onde colocar a maioria dos sinais. Os sujeitos, as ações, os complementos... sei.
A fala que vem louca às vezes me obriga a ignorar todas as regras. As gramaticais, principalmente. A escrita vem qual fala, louca. Às vezes penso que deveria escrever mais claramente.
As idéias vêm qual fala, ímpeto e improviso. Tenho pena de matar o seu fluxo natural. Não tenho coragem de amputá-las de seus ritmos, que são parte de suas vidas.
As idéias nunca são puras e limpas, pelo menos as minhas. Principalmente quando se fala da chamada realidade. Como organizá-la em orações? Como organizá-la sem colaborar para uma maior desapropriação da realidade? Como organizar sem mentir?
As idéias, as palavras, a escrita se apresentam assim e eu as reapresento assim, às vezes assado. Sempre que possível assim mesmo.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Tumbeiro

O navio parte da estação corinthians-itaquera lotado. A essa altura atulha os que cabem, que vieram de outras estações. O alto falante diz que fiquem à direita, que fiquem à esquerda, que permaneçam nos corredores, que respeitem os assentos. Eles não entendem essa língua, permanecem mudos. Seguem mudos até o destino, onde são despejados para limpar a sujeira dos outros, fazer a comida dos outros, construir a casa dos outros, ganhar o dinheiro dos outros. Continuam sem entender a língua, porém entendem o que devem fazer.
Os seus donos têm o direito de usufruir de suas vidas por no mínimo oito horas diárias, uma vida inteira. Hoje vivem muito mais que antes e podem ser dispensados de sua função a qualquer momento. Os proprietários não precisam mais vendê-los, basta colocá-los para fora (nenhuma responsabilidade). Os tumbeiros também mudaram, as viagens que duravam três meses, agora duram a vida toda.
No entanto, os tumbeiros continuam matando, não se sabe exatamente porque. Uns dizem suicídios, os incrédulos dizem assassinatos. Não se sabe se se jogam, se são empurrados, se caem... Não se fala no assunto claramente, não se sabe. Não sabemos se não suportam mais e decidem morrer ou se não têm opção. O alto falante diz: usuário na linha. Não entendem a língua, mas pela recorrência sabem que ao ouvir essa fala seu dia será ainda pior.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

um café

agora que tomava café sentia ele descendo pela garganta, quentinho. Só isso e já se desenhava em sua mente o dentro do corpo. Mais cedo, no almoço, tinha sentido a comida ir da boca para os tubos que precediam o estômago, chegando nele a comida quase caía no lugar vazio, parecia que boiava. Ninguém acreditava que conseguia sentir o trajeto da comida, mas sentia. Não queria ignorar o que acontecia lá dentro, queria sentir a comida mesmo que estivesse enjoada e ouvi-lo. Ouvia e tateava a si por dentro, por fora e entre. Aquele corpo que mostrava seu esforço em engolir, de modo irritante, era ela. Ela mesma sempre demonstrando seus esforços em engolir. Tateava e via seu útero inchado, não usava as mãos ou os olhos, via o de dentro inchado e irritado, talvez cansado. Cutucava as dores nas costas e no pescoço, apertava seus músculos até encontrar saliências e durezas. E aí sim, metia a mão e elas conversavam, a mão e as saliências, horas e horas. As dores de cabeça é que a irritavam, incontroláveis e impossíveis de tocar com as mãos ou pensar. Olhava para si por curiosidade e amor, não por si, mas pela vida que era. E muito dessa vida era fora, quase sempre fora de si. Por isso às vezes ficava quieta e parada, ou quieta e andando e os olhos perdidos nos fundos. Vivia a si mesma, um pouco por dia, quando dava. Às vezes tomando um café

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Arrabalde, as algemas

Será preciso andarmos de mãos dadas? Por onde olho estão os pares de mãozinhas grudadas. Depois que vi as algemas, entende? Sei que não entendeu quando te disse, mas é claro: as algemas, a dor e a felicidade. Sobretudo a felicidade me incomoda. E, todas grudadas, será preciso sempre todas? Todas me incomodam.
Preferia que nossas mãos estivessem soltas, ou fundidas. Se elas estivessem ensanguentadas e esmagadas juntas. Violentas. Fundidas em uma massa vermelha, cúmplice. Só se fosse assim. Ou soltas, esvoaçantes e lúcidas.
Será preciso explicar mais alguma coisa? Me incomoda que ninguém veja as algemas e o sacrifício que elas me custam. Preferia que a dor fosse explícita, vermelha e roxa. Preferia, ainda, que minhas mãos estivessem soltas e extremamente lúcidas. E você, o que pensa? Eu gosto das suas mãos nas minhas me arrastando cidade afora, mas veja: todas estão grudadas. Todos estão de mãos dadas e não vêem, isso me incomoda.
Eu gosto das suas mãos nas minhas, me arrastando cidade afora.
Será preciso andarmos de mãos dadas?
Algemas, por favor.

domingo, 11 de julho de 2010

Final

A final da copa tá emocionante...

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Feriado em Ibitinga

Porque é bom visitar a mamãe e o papai.