Pensou em como poderia terminar com aquilo. Aquilo já durava alguns anos, não sabia exatamente quantos meses, dias, etc, porque não tinham uma data.
É, não tinham uma data. Os românticos podem discordar, mas não ter uma data era uma vantagem, desde o princípio. Não ter uma data podia ser um sintoma da coisa toda, mas pensava que essa coisa de data é uma forma de distração e mais importante para o comércio que para o casal. Achava ótimo não ter essa data.
Não tinha também fotos dos dois. Algumas fotos de um ou de outro e só. Teve uma vez uma foto de um sexo oral, mas numa das idas a foto oral se foi. A questão da foto se mostrou um pouco mais complexa, queria umas fotos agora. Fotos dos dois se beijando, tiradas com aquele braço esticado que quase aparece e estraga a beleza da cena. Não tinha nenhuma foto que pudesse ainda ser rasgada e jogada na água corrente. Rasgar umas fotos seria terapêutico além de marcar um fim. Imaginava porta-retratos com fotos de momentos românticos (vinho no parque), ou momentos de intimidade (com o olho cheio de remela), e como seria simbólico poder quebrá-los todos. A coisa da foto era uma falha, pelo menos agora, no final.
Por outro lado, podia comemorar o fato de não terem uma música. A ausência de uma música ou muitas músicas tema era coincidência, não estava articulada com algum princípio ético. Nada contra músicas tema. Bom, talvez não fosse coincidência. Pensava agora que não valorizava devidamente essas distrações próprias de casais. Coisinhas que dão o que pensar enquanto se suporta as violências e o tédio. Ouvir a música e pensar no outro, ou ouvir a música juntos e saber que o outro está pensando o mesmo que você, ou quase. Será? Uma vez deu um CD de presente, outras vezes compraram CDs juntos, mesmo esses CDs não renderam músicas "do" casal.
Como terminar tudo? Não haviam fotos a serem rasgadas, nem músicas pra ouvir e chorar, nem datas a serem esquecidas. Os rituais todos devem ter uma função, vai ver é isso, facilitam na hora de terminar. Quem segue os rituais deve saber o que fazer. Quem assina um contrato pode rompê-lo. Quem tira as fotos pode rasgá-las, quem troca presentes pode devolvê-los, quem tem música tema pode ouvir e chorar o fim.
Não tinha nada pra se segurar. Talvez tivesse sido tudo muito árido, muito direto. O fim, dessa perspectiva, ficava mais difícil do que imaginava. Fim e o quê? Depois do fim o quê? Nada pra rasgar, nada pra ouvir, nada
Talvez fosse melhor não ritualizar esse fim, não torná-lo um evento. Talvez pudesse esperar acabar, sem data definida, sem justificativas e culpas. Esperar, acabar, esperar
terça-feira, 29 de setembro de 2009
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Quarttet
Então eu fui assistir ao espetáculo dirigido por Bob Wilson. Apesar de ser minha primeira vez, imaginava mais ou menos o que iria encontrar. Gostei muito do espetáculo, entendo que essa declaração não tem a menor relevância, uma vez que a minha aprovação em nada muda o fato que Wilson é reconhecido como um dos maiores encenadores de todos os tempos. Por isso mesmo me contento em dizer que gostei, e muito. Por outro lado, algumas pessoas não gostaram, algumas saíram durante o espetáculo, ou seja, nem se deram ao trabalho de apreciar a obra. Eu fiquei sentada ao lado da porta e vi muitas das pessoas que saíram dos assentos pares. Muitos artistas, claro, pois era esse o público. Aí fiquei pensando: porque essas pessoas não podiam esperar o final do espetáculo? foram surpreendidas pela linguagem? não esperavam aquele tempo? A conclusão que cheguei é simples: não importa, ou importa tanto quanto eu dizer que gostei ou não.
Como dizia minha avó: gosto é igual cú, cada um tem o seu. Mas tem gente que acha que seu cú é mais cheiroso que o dos outros. Ai se faz necessário mostrar aos outros qual o perfume do seu cú, uma forma é sair durante a peça.
Como dizia minha avó: gosto é igual cú, cada um tem o seu. Mas tem gente que acha que seu cú é mais cheiroso que o dos outros. Ai se faz necessário mostrar aos outros qual o perfume do seu cú, uma forma é sair durante a peça.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Anarquistas da boca pra fora
Tem algumas questões que de tão discutidas tornam-se bobagem e a gente pensa que não vale a pena discutir. Pensamos que os desdobramentos da discussão são óbvios e que não há necessidade de retomá-la.
Pois às vezes, mais frequentemente do que gostaríamos, nos pegamos travando discussões sobre coisas que deveriam estar claras.
A questão da forma e do conteúdo, por exemplo, não está claro que a forma veicula um conteúdo em si mesma? Não está claro que as opções formais devem ser feitas de modo que não difiram do conteúdo, ou do discurso pretendido? Por outro lado, é possível que a forma coloque o conteúdo em questão ou vice-versa, é possível brincar com essas estruturas, mas isso deve ser consciente. Do contrário, o que observamos é uma confusão pura e simples, no mal sentido.
Em arte, os artistas costumam criar, a criação sempre vem embalada ou até mesmo motivada por uma forma. Sem estabelecer aqui um caminho ideal pra criação, vamos considerar que a questão formal está implicada na criação de modo geral.
Outra questão importante, a meu ver, é como se dá o processo criativo. Existem muitas formas de trabalho e os artistas vão se afinando ao longo da sua experiência com procedimentos que lhe interessam. Na minha opinião, o modo como se dá o processo criativo é fundamental para o resultado final da obra. Acho que o modo está impresso de alguma forma na obra e que é possível verificar qualidades diferentes, segundo um ou outros modos de criar.
Outra questão que vou levantar nesse discurso um tanto caótico é a questão da anarquia. Ao que me consta, a anarquia não admite formas de poder. Sei que existem divergências entre os anarquistas, mas de modo geral, posso dizer que a anarquia não é uma forma de organização do poder. Mesmo o anarquista mais reacionário ou defeituoso, deve concordar comigo que um homem não deve exercer seu poder sobre outros.
Vou construir uma hipótese pra me aproximar da discussão que pretendo levantar: Se quero construir um espetáculo que questione as formas de poder, uma vez que sou anarquista e considero essencial tocar nesse assunto, como devo proceder?
Eu procederia da seguinte forma: primeiro, definiria um modo de criação que esteja de acordo com minhas crenças anarquistas, posso falar em um modo coletivo de criação, por exemplo. Segundo, pensaria numa forma que colocasse as questões importantes, seja uma forma extremamente rígida que refletisse o poder que estou questionando, ou uma forma bastante aberta que apresentasse minha percepção sobre a questão do poder, ou ainda, uma mescla dessas formas que evidenciasse o discurso. Por último pensaria na dramaturgia, que deveria se construir no processo criativo, mas que poderia ter um acabamento mais pro final do processo.
Essas tentativas de pensar um modo de criação a partir dos pressupostos apresentados, são uma brincadeira. Mas são uma brincadeira conceitual, os fins e os meios estão ligados de uma forma particular. Nessa brincadeira construí um modo de criação, mais ou menos definido, orientado pelos meus objetivos.
Agora vamos pensar em outros procedimentos: Primeiro eu defino meus objetivos e a partir daí crio uma dramaturgia. Segundo, digo ao meu grupo o que cada um deve fazer. Por fim, a forma vai se construindo a medida que as dificuldades do elenco em lidar com minha proposta surgem.
Não tenho como garantir que um ou outro modo de fazer garantam um espetáculo agradável de assistir. Mas sem dúvida o primeiro modo de fazer é mais coerente com o próprio fazer artístico, com o discurso pretendido, com questões que já são pensadas na criação contemporânea, etc... O segundo modo me parece amador, vai por tentativa e erro e se baseia em procedimentos conhecidos historicamente e na sorte.
Porque trazer essas discussões pra esse espaço? Porque essas questões sempre permeiam meus pensamentos e às vezes eu me pego com a necessidade de discutir coisas que parecem óbvias, pelo menos pra quem pensa a arte. Não adianta dar murro em ponta de faca, teimar, adular, chantagear, etc... o que adianta é afinar seus propósitos aos meios.
Pois às vezes, mais frequentemente do que gostaríamos, nos pegamos travando discussões sobre coisas que deveriam estar claras.
A questão da forma e do conteúdo, por exemplo, não está claro que a forma veicula um conteúdo em si mesma? Não está claro que as opções formais devem ser feitas de modo que não difiram do conteúdo, ou do discurso pretendido? Por outro lado, é possível que a forma coloque o conteúdo em questão ou vice-versa, é possível brincar com essas estruturas, mas isso deve ser consciente. Do contrário, o que observamos é uma confusão pura e simples, no mal sentido.
Em arte, os artistas costumam criar, a criação sempre vem embalada ou até mesmo motivada por uma forma. Sem estabelecer aqui um caminho ideal pra criação, vamos considerar que a questão formal está implicada na criação de modo geral.
Outra questão importante, a meu ver, é como se dá o processo criativo. Existem muitas formas de trabalho e os artistas vão se afinando ao longo da sua experiência com procedimentos que lhe interessam. Na minha opinião, o modo como se dá o processo criativo é fundamental para o resultado final da obra. Acho que o modo está impresso de alguma forma na obra e que é possível verificar qualidades diferentes, segundo um ou outros modos de criar.
Outra questão que vou levantar nesse discurso um tanto caótico é a questão da anarquia. Ao que me consta, a anarquia não admite formas de poder. Sei que existem divergências entre os anarquistas, mas de modo geral, posso dizer que a anarquia não é uma forma de organização do poder. Mesmo o anarquista mais reacionário ou defeituoso, deve concordar comigo que um homem não deve exercer seu poder sobre outros.
Vou construir uma hipótese pra me aproximar da discussão que pretendo levantar: Se quero construir um espetáculo que questione as formas de poder, uma vez que sou anarquista e considero essencial tocar nesse assunto, como devo proceder?
Eu procederia da seguinte forma: primeiro, definiria um modo de criação que esteja de acordo com minhas crenças anarquistas, posso falar em um modo coletivo de criação, por exemplo. Segundo, pensaria numa forma que colocasse as questões importantes, seja uma forma extremamente rígida que refletisse o poder que estou questionando, ou uma forma bastante aberta que apresentasse minha percepção sobre a questão do poder, ou ainda, uma mescla dessas formas que evidenciasse o discurso. Por último pensaria na dramaturgia, que deveria se construir no processo criativo, mas que poderia ter um acabamento mais pro final do processo.
Essas tentativas de pensar um modo de criação a partir dos pressupostos apresentados, são uma brincadeira. Mas são uma brincadeira conceitual, os fins e os meios estão ligados de uma forma particular. Nessa brincadeira construí um modo de criação, mais ou menos definido, orientado pelos meus objetivos.
Agora vamos pensar em outros procedimentos: Primeiro eu defino meus objetivos e a partir daí crio uma dramaturgia. Segundo, digo ao meu grupo o que cada um deve fazer. Por fim, a forma vai se construindo a medida que as dificuldades do elenco em lidar com minha proposta surgem.
Não tenho como garantir que um ou outro modo de fazer garantam um espetáculo agradável de assistir. Mas sem dúvida o primeiro modo de fazer é mais coerente com o próprio fazer artístico, com o discurso pretendido, com questões que já são pensadas na criação contemporânea, etc... O segundo modo me parece amador, vai por tentativa e erro e se baseia em procedimentos conhecidos historicamente e na sorte.
Porque trazer essas discussões pra esse espaço? Porque essas questões sempre permeiam meus pensamentos e às vezes eu me pego com a necessidade de discutir coisas que parecem óbvias, pelo menos pra quem pensa a arte. Não adianta dar murro em ponta de faca, teimar, adular, chantagear, etc... o que adianta é afinar seus propósitos aos meios.
terça-feira, 1 de setembro de 2009
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
A volta da Santa Periquita
Há uns dois anos eu escrevi um post aqui que era uma oração à Santa Periquita. Desde então muitas pessoas chegaram ao meu blog procurando a Santa. É sério! É a expressão que mais atrai visitantes ao blog vindos de sites de busca, mais que meu nome por exemplo. Em homenagem à Santa que me trouxe tantos leitores potenciais, resolvi ressuscitar a oração. Quem sabe venha a ser a oração oficial, daquelas que vão no verso do santinho...
Ai, minha santa periquita, santa dos casos perdidos e transas urgentes.
Me ajude. Preciso de um homem pra me fazer um carinho, me levar pra jantar, me beijar na porta de casa, enfiar a mão por baixo da saia, beliscar meus peitinhos, trepar a noite inteira, que faça serviço completo e mande flores no dia seguinte... dá pra ser? Ah, tá em falta.
Santa periquita, santa dos casos perdidos e transas urgentes me arruma pelo menos um rapaz bem servido de pinto, que seja rígido, bem disposto e que não passe mal com sexo oral, se vier com cafuné antes de dormir é perfeito. Ah... não tem também?
Olha minha santa, vou facilitar as coisas pra senhora. Me arruma qualquer coisa com pinto, nem precisa ser tão rígido, que a gente dá um jeito por aqui.
Amém!
Ai, minha santa periquita, santa dos casos perdidos e transas urgentes.
Me ajude. Preciso de um homem pra me fazer um carinho, me levar pra jantar, me beijar na porta de casa, enfiar a mão por baixo da saia, beliscar meus peitinhos, trepar a noite inteira, que faça serviço completo e mande flores no dia seguinte... dá pra ser? Ah, tá em falta.
Santa periquita, santa dos casos perdidos e transas urgentes me arruma pelo menos um rapaz bem servido de pinto, que seja rígido, bem disposto e que não passe mal com sexo oral, se vier com cafuné antes de dormir é perfeito. Ah... não tem também?
Olha minha santa, vou facilitar as coisas pra senhora. Me arruma qualquer coisa com pinto, nem precisa ser tão rígido, que a gente dá um jeito por aqui.
Amém!
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Por exemplo as cadeiras

Nesse sábado vou dançar, é uma coreografia ainda em andamento e será apresentada no lançamento do DVD-ROM Dança Criança na Vida Real.
Trabalhei na elaboração desse DVD como colaboradora também. É um DVD que apresenta um trabalho realizado numa escola, em 2008. Uma intervenção em forma de vivências em dança.
Vai ser legal.
Porque eu gosto
Outro dia meu pai me disse que sou muito crítica e tô sempre revoltada. Ele estava preocupado porque acha que nunca estou feliz. Ele tem razão. Não que eu não fique feliz, mas tô sempre preocupada. Leio o jornal e fico nervosa, vejo TV e fico inconformada. Ando pela rua detectando tudo que está errado e devia ser diferente. O social, o humano, a conjuntura.
Eu respondi pro meu pai que se eu deixasse de ser crítica não ia me sobrar nada.
Há umas duas semanas minha prima e amiga citou meu pai e ainda me mandou essa: você leva a vida com muito peso, fica difícil aproveitar as coisas boas que acontecem. Ela tem razão.
Eu criei um padrão de “excelência” que me custa mais do que percebo. Faz alguns anos que abandonei o descompromisso, mesmo o eventual. Pensava que esse era um movimento natural, algo como trocar a adolescência pela vida adulta.
Caí do cavalo.
Assumi compromissos, estabeleci metas, ingenuamente chamadas de sonhos. Destilei regras e padrões de felicidade comprometida. Opa, justo eu que adoro questionar os padrões, os modelos? (pelo menos teoricamente). A questão é que todo esse comprometimento que prezo tanto me afastou das coisas simples e plenas.
Estou sempre defendendo o valor a experiência, não experiência como passado, mas a experiência como pura experiência mesmo. Sabe quando você faz qualquer coisa e pensa: putz, é isso! entendi tudo... é experiência. É aprendizado e transforma suas percepções.
Eu assumo, matei minhas experiências repetidas vezes, durante anos. Não todas, evidentemente, mas uma boa parte delas.
Nos últimos dias tenho andado numa montanha russa, não sei em que ponto estou e muito menos se vou cair ou subir na próxima curva. Perdi as referências. Justamente nessa perda, ou por essa perda, redescobri a experiência. A experiência acontece no agora e é um momento pleno, completo.
Quando você não sabe o que vai acontecer a seguir, nem se preocupa com isso, quando não se tem parâmetros, nem um passado que te mostre o que vai acontecer. Enfim, quando não há onde se agarrar, acontece a experiência e ela é plena de prazer.
Ficar apaixonado é mais ou menos assim. Não há regras, compromissos e metas a cumprir. Você sente tesão, prazer na companhia do outro e parece que não há tempo.
Aí a gente inventa um monte de bobagem: sonhos em comum, objetivos, planos para o futuro e mais um sistema completo para que tudo isso dê certo. Um esquema que não tem nada a ver com sentimento. Tratos e combinados que devem ser cumpridos, mesmo se foram feitos enquanto você estava com um pênis na boca. Assim você legitima aquela paixão e transforma em algo MAIOR, MAIS COMPLETO: UM CASAMENTO.
Nada contra casamento, veja bem, não pensem que estou aqui com dor de cotovelo. Acho que a idéia de viver com alguém é muito boa, é uma coisa realmente deliciosa. Claro que é bom por alguns lados e ruim por outros, mas é aí que quero chegar. Chego a uma conclusão entre tantas possíveis: o amor independe da montanha de combinados.
Sentir amor é algo que acontece no presente. Não sei de nada melhor que amar alguém sem ter que pensar na conjuntura da relação. Foda-se a conjuntura e foda-me por favor! Ninguém pode sentir a minha experiência de estar apaixonada, ninguém pode tirar isso de mim. É um tesão não ter que resolver problemas de relacionamento.
Outro dia eu perguntava: mas porque você quer fazer isso? a gente já sabe que não leva a nada. A resposta me desconcertou: PORQUE EU GOSTO.
Eu não faço nada só por gostar, tudo deve estar ligado a um objetivo maior que eu mesma. Oi?! maior que eu mesma?
Olha, não vou abandonar minhas crenças de vez, chutar o balde e sair por aí apenas satisfazendo 'eu mesma'. Por outro lado, os policiais de plantão que me desculpem, mas eu gosto de ser feliz, nem que seja um dia, dois, uma semana, alguns meses... eu mereço. E fazer algo simplesmente porque eu gosto é bom pra caralho.
Eu faço porque eu gosto, porque é vivo, porque existe a possibilidade. Por enquanto é só isso que eu preciso.
Eu respondi pro meu pai que se eu deixasse de ser crítica não ia me sobrar nada.
Há umas duas semanas minha prima e amiga citou meu pai e ainda me mandou essa: você leva a vida com muito peso, fica difícil aproveitar as coisas boas que acontecem. Ela tem razão.
Eu criei um padrão de “excelência” que me custa mais do que percebo. Faz alguns anos que abandonei o descompromisso, mesmo o eventual. Pensava que esse era um movimento natural, algo como trocar a adolescência pela vida adulta.
Caí do cavalo.
Assumi compromissos, estabeleci metas, ingenuamente chamadas de sonhos. Destilei regras e padrões de felicidade comprometida. Opa, justo eu que adoro questionar os padrões, os modelos? (pelo menos teoricamente). A questão é que todo esse comprometimento que prezo tanto me afastou das coisas simples e plenas.
Estou sempre defendendo o valor a experiência, não experiência como passado, mas a experiência como pura experiência mesmo. Sabe quando você faz qualquer coisa e pensa: putz, é isso! entendi tudo... é experiência. É aprendizado e transforma suas percepções.
Eu assumo, matei minhas experiências repetidas vezes, durante anos. Não todas, evidentemente, mas uma boa parte delas.
Nos últimos dias tenho andado numa montanha russa, não sei em que ponto estou e muito menos se vou cair ou subir na próxima curva. Perdi as referências. Justamente nessa perda, ou por essa perda, redescobri a experiência. A experiência acontece no agora e é um momento pleno, completo.
Quando você não sabe o que vai acontecer a seguir, nem se preocupa com isso, quando não se tem parâmetros, nem um passado que te mostre o que vai acontecer. Enfim, quando não há onde se agarrar, acontece a experiência e ela é plena de prazer.
Ficar apaixonado é mais ou menos assim. Não há regras, compromissos e metas a cumprir. Você sente tesão, prazer na companhia do outro e parece que não há tempo.
Aí a gente inventa um monte de bobagem: sonhos em comum, objetivos, planos para o futuro e mais um sistema completo para que tudo isso dê certo. Um esquema que não tem nada a ver com sentimento. Tratos e combinados que devem ser cumpridos, mesmo se foram feitos enquanto você estava com um pênis na boca. Assim você legitima aquela paixão e transforma em algo MAIOR, MAIS COMPLETO: UM CASAMENTO.
Nada contra casamento, veja bem, não pensem que estou aqui com dor de cotovelo. Acho que a idéia de viver com alguém é muito boa, é uma coisa realmente deliciosa. Claro que é bom por alguns lados e ruim por outros, mas é aí que quero chegar. Chego a uma conclusão entre tantas possíveis: o amor independe da montanha de combinados.
Sentir amor é algo que acontece no presente. Não sei de nada melhor que amar alguém sem ter que pensar na conjuntura da relação. Foda-se a conjuntura e foda-me por favor! Ninguém pode sentir a minha experiência de estar apaixonada, ninguém pode tirar isso de mim. É um tesão não ter que resolver problemas de relacionamento.
Outro dia eu perguntava: mas porque você quer fazer isso? a gente já sabe que não leva a nada. A resposta me desconcertou: PORQUE EU GOSTO.
Eu não faço nada só por gostar, tudo deve estar ligado a um objetivo maior que eu mesma. Oi?! maior que eu mesma?
Olha, não vou abandonar minhas crenças de vez, chutar o balde e sair por aí apenas satisfazendo 'eu mesma'. Por outro lado, os policiais de plantão que me desculpem, mas eu gosto de ser feliz, nem que seja um dia, dois, uma semana, alguns meses... eu mereço. E fazer algo simplesmente porque eu gosto é bom pra caralho.
Eu faço porque eu gosto, porque é vivo, porque existe a possibilidade. Por enquanto é só isso que eu preciso.
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