quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Você é muito especial

Eu segui você esse ano. O ano todo, praticamente. Acompanhei as músicas que você ouviu, os filmes, o que você comeu no almoço, o baixo astral, o alto astral, as festas. Vi que seu cachorro velhinho morreu de câncer. É muito comum os cães morrerem de câncer, ouvi dizer que...
Acho que vi e compartilhei todos os vídeos, gosto dos seus vídeos. E suas fotos? São incríveis, lembro muito bem de uma. Acabei compartilhando algumas fotos também, não sei se percebeu.
Eu segui você, acho que foi esse ano que comecei né? Nem sei mais, porque aconteceu tanta coisa esse ano que nem sei... passou rápido. Aconteceu tanta coisa com a gente. Não sei se você soube, mas eu também pedi demissão e aí já viu, recomeçar... Na verdade nem foi assim tão traumático, pensando agora. Nem sei.
Parece que esse ano fiquei correndo atrás de várias coisas e perdi a noção do todo.
Na hora parece tudo difícil e no fim do ano parece que não aconteceu nada.
Faz uns dias que você não fala nada, viajou? Vi umas fotos que pareceu que sim. Acho bacana esse seu jeito cool, nunca se sabe o que tá mesmo acontecendo e.
Bom, na verdade nem era isso que eu ia dizer. Nem era. Ia te dar feliz natal?
Desculpa mandar um e-mail assim comprido de surpresa, eu sei que você nem gosta, mas.
Você é muito especial,
Beijo e feliz ano tamb

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Fazendo tempo

Faz tempo que eu não leio algo sem pressa e sem pensar se é bom ou não. Faz tempo que eu não leio um texto legalzinho até o fim e sem pressa. Faz tempo que eu não tenho tempo de ser conquistada por umas palavras. Faz muito tempo que não leio um livro sem necessidade nenhuma. Faz tempo que eu não escrevo sem pressa e sem pensar se é bom ou não.
Faz tempo que a eficiência ocupou um espaço enorme da minha vida.
Merda.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

atuar pra poder voar

- é difícil, viu meu bem? quem falou esse negócio de "atuar pra poder voar", tava falando do quê? quem atua voa, por acaso? atuar é aquela coisa existencialista, que não quer ser porque é social. só que também não é social porque não consegue chegar. ah, a sociedade é tão grande que não cabe no meu talento. sabe? nunca voei, não consigo. esse negócio de voar é pra quem pode, pra quem tem um ego ou um gênio muito grande. tenho vergonha até. e a vergonha que me dá é de tudo, de atuar, de não atuar, de trabalhar, de querer receber pra fazer teatro (que aí nem chamo de trabalho). é uma vergonha que não vejo em quem voa, por exemplo. os voadores acreditam que têm talento suficiente. aí fico achando que tenho que dar aula, que tenho que fazer teatro de esclarecimento. como se fosse possível clarear alguma coisa. pronto, bate a vergonha de achar que atuar serve pra alguma coisa. mas também não dá pra fazer qualquer coisa, né? o artista tem obrigação de tapar buracos na educação e na cultura. nossa, é difícil viu? no fim, a arte ainda serve pra alguma coisa, num serve?
- eu adoro musicais.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

de olhos bem abertos

ao amor da minha vida um beijo, na boca
aos amores passados da minha vida os mesmos beijos, nas bocas
mãos dadas, dedos enlaçados e grudentos desde o primeiro amor
desde o primeiro o aprendizado do beijo, beijar é assim
lábios se encostam, se abrem, se roçam e sugam as línguas
braços na cintura, no pescoço, nas partes
mãos
bocas
orelhas
pênis
bunda

olho nos seus olhos meu amor, olho suas marcas na testa, um pêlo que sai do nariz
seguro sua orelha entre os dedos e penso
nunca nos envergonhamos de nossas carícias treinadas
nunca procuramos um gesto nosso
nossas boquinhas ensinadas
os dedinhos
nunca estranhamos
e agora?

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Aprender a desaprender

Quando eu era pequena achava, sinceramente, que eu era digna de sucesso. Não, não é isso. Quando eu era pequena, eu achava que podia fazer qualquer coisa. Ainda não é isso. Quando eu era pequena fazia tudo que eu imaginava.
Eu escrevi, atuei e dirigi uma peça na 3ª série. Também coreografei e dancei duas músicas da xuxa, com paquitas, na escola. Na mesma época criei um jornalzinho da escola, com vários colaboradores. Pouco depois criei um mural-correio na escola. Por volta dos 10 anos organizei um desfile caipira (era um evento inédito) para a festa junina da escola. Eu era um prodígio, pelo menos a diretora da escola acreditava nisso.
Algumas tentativas de assédio sexual, assédio moral, espancamento e difamação contra mim também ocorreram na mesma época.
Depois desse período, fui ficando cada vez mais reservada. E veio a adolescência. Minhas vontades começaram a me parecer cada dia mais idiotas. Ser invisível me pareceu mais agradável e mais seguro.
A medida que fui ficando mais invisível, minha vida foi se tornando mais fácil. E assim passei a adolescência toda tentando sumir, tentando ser mais uma. Consegui, ou quase.
Hoje eu penso em quanta violência eu sofri na infância, imagino que outras crianças também tenham sofrido. Penso no quanto essa violência foi importante para destruir uma insipiente criatividade, razoavelmente independente.
É assim que se educa crianças ainda?
Aos 30, fico aqui tentando driblar uma derrota prevista, uma frustração antecipada. Quase sempre na base da invisibilidade temporária. Aprendi direitinho.
Falta agora desaprender tudo que a escola me ensinou.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

uma afronta e três pessoas que responderam

os alto-falantes disseram aos usuários que não colocassem os pés sobre os assentos, os assentos devem ser respeitados.

um usuário observou - parece brincadeira isso, nem tem lugar pra sentar imagina pra por o pé.

uma usuária observou - não é brincadeira não, é uma ofensa isso.

uma outra - parece piada mesmo.

o mesmo usuário - pior que em todo trem falam a mesma coisa, e a gente nem consegue entrar no trem muitas vezes. por o pé, vê só! eles tiram uma com a cara da gente.
ó aqui no jornal, vão fazer o trem até guarulhos, precisa mesmo.

uma usuária disse - vão fazer por causa da copa né?

o usuário - mas vai ser bom. isso se fizerem mesmo.

a usuária - também falaram em ampliar a rede de metrô e trem, anos depois e nada. mas aposto que o trem até guarulhos sai.

o usuário - é, eles mentem muito. eu votei nesse aqui, no alkmin. mas não sei não... não sei se é de confiança.

a usuária pensou e calou - ele votou...

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Mais uma história de heróis

33 mineiros foram resgatados de uma mina de ouro e cobre no Chile após 70 dias de soterramento. O resgate aconteceu antes do tempo inicialmente previsto, que era de 3 a 4 meses. Os mineiros foram recebidos pelos familiares e pelo presidente, que aguardavam ansiosos desde o acidente. Os mineiros se tornaram pop stars, ou heróis, como também têm sido chamados. O mundo inteiro se comoveu com a história desse resgate dramático. O presidente chileno, um empresário mineiro, já tem algumas palestras agendadas pelo mundo afora, o tema: segurança nas minas.

33 homens trabalhavam a mais de 700 m de profundidade. O ambiente é úmido e quente (temperaturas acima de 40°). Houve um acidente, a saída da mina foi bloqueada e os homens enterrados lá dentro. De acordo com as leis chilenas, toda mina deve ter pelo menos duas saídas, a lei não foi cumprida nesse caso.

33 trabalhadores ficaram soterrados por 70 dias a mais de 700 metros de profundidade. 33 trabalhadores de uma mina de ouro e cobre foram soterrados e foram resgatados 70 dias depois.

Homens escavam o terra em busca de ouro e cobre, esses homens trabalham para empresas. Homens morrem no fundo da terra, no Chile e na China. Onde mais? Homens vivem enterrados.

Enterraram os homens a centenas de metros de profundidade, deixaram que ficassem lá por 70 dias, depois desenterraram e sugeriram que devemos festejar.

33 homens presos debaixo da terra. Quantos mortos?