Desde bebê eu aprendi a sorrir nas fotos. Na minha infância sair com cara feia na foto era fatal, porque você só saberia disso no momento da revelação. Eu tenho uma foto com os primos na qual estou com o nariz vermelho de tanto chorar. Um cabelo espetado na fotografia jamais seria reparado e você ficaria eternizada como a pessoa mais descabelada da foto. Fotografia era coisa séria, devia ser bem preparada, planejada em detalhes ou poderia ser um desastre.Os hábitos adquiridos nessa prática fotográfica arcaica estão sempre comigo e assim eu aprendi a tentar ficar bem nas fotos. Claro que não funciona muito, acabo ficando com aquele bico de chupar pau ou com a cara torta. No entanto, o futuro chegou, a tecnologia mudou e hoje podemos deletar todas as fotos que nos deprimem, não é?
Não, nem todas as fotos podem ser deletadas.
Aqui na metrópole muitas pessoas possuem câmeras, muitas mesmo. É possível ver grupos grandes passeando pelo centro, fotografando a paisagem, a arquitetura, os artistas, as pessoas.
Hoje, quando eu vinha pro trabalho, encontrei um desses fotógrafos na rua da consolação. Do meio da pista ele fotografava um homem miserável, que estava em frente a uma agência do itaú. O homem posava. O fotógrafo agachou, levantou, girou a câmera, diversos cliques e eu de queixo caído com a cena. Enquanto o sinal não abria, fiquei olhando aquele fotógrafo loiro, um pouco careca, vestindo aquela roupa cáqui de fotógrafo de safári.
Ele atravessou a rua e falou com o homem miserável que, por sua vez, era preto, estava sujo, vestindo preto e com um capuz quase escondendo seu rosto. O fotógrafo deu alguma coisa para o miserável que tanto podia ser dinheiro quanto cigarros. O fotógrafo seguiu seu caminho e o homem miserável também. Eu também.
Não consegui esquecer que o modelo posava para o fotógrafo loirinho. Ele levantou os braços, cenicamente exibindo seus andrajos. O loirinho clicou e clicou e clicou. E pagou alguma coisa por isso. Não deu um aperto de mão, não. Certamente agradeceu, porque a gente agradece por tudo, não é? Mas também pagou algo pelas fotos, que pode ser dinheiro ou cigarros.
Eu segui meu caminho com uma vontade danada de parar o fotógrafo e perguntar: porquê? E perguntar até quando ele guardaria a fotografia, se ele ia deletar ou se ele lembrava de como as fotografias eram sérias antigamente. Mas eu não falei nada, não queria chegar atrasada no trabalho.
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
só um cisco
hoje olhei pela janela do ônibus para a comprida avenida, vi as ruas que cruzavam, as casas, os prédios, bares e pessoas andando rápidas.
não sei porque pensei na terra, na imensurável bola. vi seus continentes e oceanos infinitos. lembrei que ela não é uma mapinha plano, numa página. ela tem um volume impossível de imaginar, um centro quentíssimo e
percebi como as grandes obras, todo o concreto, asfalto e nossos prédios compridos são pequenos. pequenininhos.
e nós somos umas formiguinhas, construindo as trilhas de concreto, asfalto e imensas cidades pequenas. imensas casquinhas sobre o solo. apenas uma chuva (água caindo)
só uma chuva, qualquer chuva arrasta esses pequenos seres humanos, abre buracos e crateras nas suas avenidas.
eu me enganei nos últimos 31 anos, achando que eu era grande.
não sei porque pensei na terra, na imensurável bola. vi seus continentes e oceanos infinitos. lembrei que ela não é uma mapinha plano, numa página. ela tem um volume impossível de imaginar, um centro quentíssimo e
percebi como as grandes obras, todo o concreto, asfalto e nossos prédios compridos são pequenos. pequenininhos.
e nós somos umas formiguinhas, construindo as trilhas de concreto, asfalto e imensas cidades pequenas. imensas casquinhas sobre o solo. apenas uma chuva (água caindo)
só uma chuva, qualquer chuva arrasta esses pequenos seres humanos, abre buracos e crateras nas suas avenidas.
eu me enganei nos últimos 31 anos, achando que eu era grande.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
#FrasesDeClarice 2
Escuta essa, Clarice. Ontem eu vinha andando pela rua, acendendo um cigarro. Duas travestis, que estavam sentadas na porta dos fundos do kilt, me pediram cigarro. Eu tirei um cigarro pra cada, ofereci fogo, etc. Uma delas ficou realmente agradecida.
- Nossa, obrigada. Um cigarro pra cada uma...
- Imagina... - eu tinha acabado de comprar um maço.
- Deixa eu ver seu rosto. Nossa como você é linda!
- Obrigada.
- É sério, você é linda mesmo. Posso te dar um beijo, assim... no rosto?
- Claro.
- Não acredito! - e me beijou, um de cada lado.
- Vou indo nessa, tchau!
- Tchau, prazer.
- O prazer foi meu.
Aí fiquei pensando, elas estavam realmente sujas. Fiquei pensando, o prazer foi meu. Pensei em quantos beijos ganhei no rosto naquele dia, nem sei quantos. Eu ganho muitos beijos no rosto diariamente e grande parte não quer dizer nada. Ninguém me pede autorização, posso te dar um beijo? Não me lembro de nenhum outro beijo nessa semana, só desse. Ficou meia marquinha de batom com sujeira na minha bochecha. Chegando em casa eu tive que me lavar e, mesmo sem querer, pensei em conferir se o celular continuava na bolsa. A situação pareceu surreal. Que você achou dessa?
- Eu quero olhar para o lado e estar cercado só de quem me interessa.
- Fiquei justamente em dúvida sobre isso, o que nos interessa? quem?
- Finjo que alguém está me dando a mão e então vou, vou para a enorme ausência de forma que é o sono.
- Hãã.
- Quando me entrego, me atiro. Mas quando recuo, não volto mais.
- Clarice, você tá chapada?
- Eu grito: eu sinto, eu sofro, eu me alegro, eu me comovo. Só o meu enigma me interessa.
- Ok, Clarice. Beijotchau.
- Nossa, obrigada. Um cigarro pra cada uma...
- Imagina... - eu tinha acabado de comprar um maço.
- Deixa eu ver seu rosto. Nossa como você é linda!
- Obrigada.
- É sério, você é linda mesmo. Posso te dar um beijo, assim... no rosto?
- Claro.
- Não acredito! - e me beijou, um de cada lado.
- Vou indo nessa, tchau!
- Tchau, prazer.
- O prazer foi meu.
Aí fiquei pensando, elas estavam realmente sujas. Fiquei pensando, o prazer foi meu. Pensei em quantos beijos ganhei no rosto naquele dia, nem sei quantos. Eu ganho muitos beijos no rosto diariamente e grande parte não quer dizer nada. Ninguém me pede autorização, posso te dar um beijo? Não me lembro de nenhum outro beijo nessa semana, só desse. Ficou meia marquinha de batom com sujeira na minha bochecha. Chegando em casa eu tive que me lavar e, mesmo sem querer, pensei em conferir se o celular continuava na bolsa. A situação pareceu surreal. Que você achou dessa?
- Eu quero olhar para o lado e estar cercado só de quem me interessa.
- Fiquei justamente em dúvida sobre isso, o que nos interessa? quem?
- Finjo que alguém está me dando a mão e então vou, vou para a enorme ausência de forma que é o sono.
- Hãã.
- Quando me entrego, me atiro. Mas quando recuo, não volto mais.
- Clarice, você tá chapada?
- Eu grito: eu sinto, eu sofro, eu me alegro, eu me comovo. Só o meu enigma me interessa.
- Ok, Clarice. Beijotchau.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
#FrasesDeClarice
Não sei o que houve mas não amo mais Clarice. Eu achava que cada frase de Clarice era uma surpresa, uma vírgula na vida. Agora vejo suas frases se proliferarem e não me dizem mais nada. Nem sei se as suas frases são mesmo suas, algumas não são.
Acho que os olhos de Clarice envelheceram, ou suas visões se perderam na indelicadeza dos meus dias. Suas perguntas não me inquietam mais, ou eu fiquei velho para as perguntas. Ah, Clarice não te amo mais. Juro que queria ainda te amar, queria mas não dá mais. Você não tem mais nada que me espante.
Ontem, olhando da janela vi um rapaz sendo assaltado. Ele trazia uma pizza e um guaraná. Não levaram a pizza, a fome era outra. Ele correu sem convicção com a pizza na mão. O guaraná na outra. Foi até a esquina olhou o ladrão e voltou. Voltou para o prédio onde mora, pareceu que enxugava os olhos. Balançava a cabeça.
- O que você pensa Clarice?
- Muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para frente.
- Não entendi.
- Eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimentos.
- Ele foi assaltado com a pizza na mão.
- Uma pessoa livre, realmente livre, é aquela que não tem medo do ridículo.
- É, ele se sentiu ridículo correndo com a pizza.
- Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam.
- Esquece Clarice. Tchau.
Acho que os olhos de Clarice envelheceram, ou suas visões se perderam na indelicadeza dos meus dias. Suas perguntas não me inquietam mais, ou eu fiquei velho para as perguntas. Ah, Clarice não te amo mais. Juro que queria ainda te amar, queria mas não dá mais. Você não tem mais nada que me espante.
Ontem, olhando da janela vi um rapaz sendo assaltado. Ele trazia uma pizza e um guaraná. Não levaram a pizza, a fome era outra. Ele correu sem convicção com a pizza na mão. O guaraná na outra. Foi até a esquina olhou o ladrão e voltou. Voltou para o prédio onde mora, pareceu que enxugava os olhos. Balançava a cabeça.
- O que você pensa Clarice?
- Muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para frente.
- Não entendi.
- Eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimentos.
- Ele foi assaltado com a pizza na mão.
- Uma pessoa livre, realmente livre, é aquela que não tem medo do ridículo.
- É, ele se sentiu ridículo correndo com a pizza.
- Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam.
- Esquece Clarice. Tchau.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Paris é...
Ainda não me acostumei com a sua ida a Paris. Nem tanto pela inveja, nem pelo sonho que sempre foi Paris para nós mortais pobres. Porque é muito diferente IR para Paris e passear em Paris todas as férias. Para nós tem cara de sonho, ou tinha.
Paris é uma festa, dizem.
Espero que seja uma festa mesmo, você vai aproveitar bastante. Só não sei como vai sobreviver à festa sem a gente. Quem vai controlar sua bebida, seu fumo, sua alegria? Ok, finalmente sem controle...
Pelo menos volte escritor, não volte antes disso. Não me venha com desculpas. Não me venha com a falta de tempo e o excesso de trabalho. Não vá até Paris pra trabalhar, não vá.
Aproveite nossa ausência e esqueça que é um rapaz maduro desde o nascimento.
Paris é uma puta, dizem, e acho que até você pode curtir uma putona. Não vá até lá pra comer camembert e tomar vinho na taça.
Use boina, cachecol ou gola rolê. Se colocar tudo junto me manda uma foto.
Ainda não me acostumei com essa ida a Paris.
Essa ida repentina me coloca diversos problemas que não sei como resolver.
Como suportar as tarde chuvosas de verão? Aposto que em Paris não chove todo dia.
Quem vai me socorrer no caso de mais uma separação?
Com quem vou conversar academices? E as reflexões filosóficas?
E pior: o que vou fazer com a minha já conhecida mediocridade? Ela ficou em evidência e isso é difícil perdoar.
Paris é uma festa, dizem.
Espero que seja uma festa mesmo, você vai aproveitar bastante. Só não sei como vai sobreviver à festa sem a gente. Quem vai controlar sua bebida, seu fumo, sua alegria? Ok, finalmente sem controle...
Pelo menos volte escritor, não volte antes disso. Não me venha com desculpas. Não me venha com a falta de tempo e o excesso de trabalho. Não vá até Paris pra trabalhar, não vá.
Aproveite nossa ausência e esqueça que é um rapaz maduro desde o nascimento.
Paris é uma puta, dizem, e acho que até você pode curtir uma putona. Não vá até lá pra comer camembert e tomar vinho na taça.
Use boina, cachecol ou gola rolê. Se colocar tudo junto me manda uma foto.
Ainda não me acostumei com essa ida a Paris.
Essa ida repentina me coloca diversos problemas que não sei como resolver.
Como suportar as tarde chuvosas de verão? Aposto que em Paris não chove todo dia.
Quem vai me socorrer no caso de mais uma separação?
Com quem vou conversar academices? E as reflexões filosóficas?
E pior: o que vou fazer com a minha já conhecida mediocridade? Ela ficou em evidência e isso é difícil perdoar.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
eu, eu e eu
Hoje olhei pra minha cara e não me reconheci. Isso já aconteceu antes, mas faz tempo. Não conheço essa menina com cara de bolacha, sorrindo. Ela abraça as pessoas e sorri. Ela parece simples e feliz. Não conheço, não. Balanço minha cabeça pesada e tento, em vão, lembrar. Que eu me lembre... não consigo abrir mão de um aposto entre vírgulas.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Você é muito especial
Eu segui você esse ano. O ano todo, praticamente. Acompanhei as músicas que você ouviu, os filmes, o que você comeu no almoço, o baixo astral, o alto astral, as festas. Vi que seu cachorro velhinho morreu de câncer. É muito comum os cães morrerem de câncer, ouvi dizer que...
Acho que vi e compartilhei todos os vídeos, gosto dos seus vídeos. E suas fotos? São incríveis, lembro muito bem de uma. Acabei compartilhando algumas fotos também, não sei se percebeu.
Eu segui você, acho que foi esse ano que comecei né? Nem sei mais, porque aconteceu tanta coisa esse ano que nem sei... passou rápido. Aconteceu tanta coisa com a gente. Não sei se você soube, mas eu também pedi demissão e aí já viu, recomeçar... Na verdade nem foi assim tão traumático, pensando agora. Nem sei.
Parece que esse ano fiquei correndo atrás de várias coisas e perdi a noção do todo.
Na hora parece tudo difícil e no fim do ano parece que não aconteceu nada.
Faz uns dias que você não fala nada, viajou? Vi umas fotos que pareceu que sim. Acho bacana esse seu jeito cool, nunca se sabe o que tá mesmo acontecendo e.
Bom, na verdade nem era isso que eu ia dizer. Nem era. Ia te dar feliz natal?
Desculpa mandar um e-mail assim comprido de surpresa, eu sei que você nem gosta, mas.
Você é muito especial,
Beijo e feliz ano tamb
Acho que vi e compartilhei todos os vídeos, gosto dos seus vídeos. E suas fotos? São incríveis, lembro muito bem de uma. Acabei compartilhando algumas fotos também, não sei se percebeu.
Eu segui você, acho que foi esse ano que comecei né? Nem sei mais, porque aconteceu tanta coisa esse ano que nem sei... passou rápido. Aconteceu tanta coisa com a gente. Não sei se você soube, mas eu também pedi demissão e aí já viu, recomeçar... Na verdade nem foi assim tão traumático, pensando agora. Nem sei.
Parece que esse ano fiquei correndo atrás de várias coisas e perdi a noção do todo.
Na hora parece tudo difícil e no fim do ano parece que não aconteceu nada.
Faz uns dias que você não fala nada, viajou? Vi umas fotos que pareceu que sim. Acho bacana esse seu jeito cool, nunca se sabe o que tá mesmo acontecendo e.
Bom, na verdade nem era isso que eu ia dizer. Nem era. Ia te dar feliz natal?
Desculpa mandar um e-mail assim comprido de surpresa, eu sei que você nem gosta, mas.
Você é muito especial,
Beijo e feliz ano tamb
Assinar:
Postagens (Atom)