sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Felizes para sempre ou como eles se conheceram ou nóis capota mai num breca

A menina tinha uns 23 anos, loura de cabelos ora encaracolados, ora alisados. Chegou no seu traje algo anos 60 ou 70, mais pra 70. Combinou uma calça genérica com uma blusa estampada que lembrava passado, plataformas e um óculos emprestado em formato de coração vermelho. O figurino era obrigatório: anos 60 ou 70. Ela não estava nem uma coisa nem outra, mas enganava.
Veio de carona com um colega, tinha bebido uma caipirinha antes de sair de casa, enquanto se arrumava. No carro, falava um pouco mais alto que o necessário. Ela estava sempre um pouco além do necessário. Falava de como estava conhecendo a cidade, do trabalho, do cansaço e também do ritmo acelerado. O ritmo da cidade atiçava sua agressividade e ela falava mais rápido, gesticulava e batia nas pessoas, nas coisas. Ela se espalhava pelo carro, seus sons e risadas batiam nos vidros fechados. O amigo parou para comprar uma cerveja na loja de conveniência. Compraram e foram bebendo devagar até chegarem à festa.
Não sabiam o que iriam encontrar na festa, talvez fosse péssima... Entraram e encontraram outros amigos que os esperavam. Os amigos estavam sempre em grupos grandes demais para ela. Cumprimentou todos e foi logo perguntando do bar e se dirigindo pra lá ao mesmo tempo. Voltou com as bebidas e foi dando um jeito de acabar com a cerveja que estava quente. Bebeu rápido, mas era assim mesmo, bebia rápido demais. Olhava ao redor meio distraída, parece que as festas estavam sempre piores do que poderiam. Se irritava com o esforço de todos em ficarem no estado máximo de felicidade. Como se isso fosse possível naquele ambiente.
Um dos amigos tinha vindo especialmente por causa dela, tinham ficado juntos algumas vezes e agora a presença dele a irritava. Ele fingia que estava ali pra curtir a festa e repetia a frase: vamos curtir a festa! Ela se irritava com a cara falsa dele e aqueles olhinhos murchos pressentindo o fora. Vou pegar mais cerveja!
Bebia e tentava se concentrar na turba de amigos, não sabia mais do que falavam e não conseguia se interessar, era tudo tão confuso e chato. A conversa sempre se resumia às lembranças de festas que foram boas, casos bizarros em festas, bebedeiras, baixarias, etc. Um regurgitar e engolir aquele bolo festivo. Ela ria em alguns momentos, mas procurava com os olhos uma rota de fuga. Deu de cara com uns olhos grandes que sorriam para ela, um sorriso um pouco vulgar e gasto de tanto ser dado por aí. Mesmo assim aquele sorriso olhos e dentes pareceu diferente no escuro.
O sorriso aberto perguntava alguma coisa de longe, fez sinais. Ela pediu um isqueiro emprestado e foi em direção àqueles dentes, sorrindo também. Ele perguntou se ela fumava, enquanto acendia um baseado ordinário. Ela disse que sim e fumaram juntos, ele apresentou os amigos que estavam com ele. Já tinha encontrado com ele várias vezes, mas nunca o tinha achado tão lindo como naquela noite. Aliás, ele era um tipo irritante, sempre sorrindo e tentando conquistar quem passasse pela frente.
Eles dançavam juntos, fumando e bebendo, conversando aos berros algumas frases banais. Ela tinha ficado hipnotizada por ele que também usava uns óculos de fantasia. A fantasia dele era mais fajuta que a dela, uma camisa e calças pretas e uns óculos espelhados de camelô. Ela bebia e dançava com ele e alguns amigos dele que pairavam em torno. Não via mais os seus amigos e nem poderia voltar para lá. Já estava bêbada fazia um tempo, impossível de medir, sempre queria saber quando fora exatamente que tinha ficado bêbada. Quando foi o copo fatal?
Foi se deixando levar pela festa, pelo fumo, pelo moço sorridente. Ele era muito bonito, até demais! mas ao mesmo tempo a superficialidade daquela beleza prometia alguma coisa. Adivinhava alguma coisa embaixo daqueles músculos e daquele sorriso calculado. Por baixo de toda a casca de felicidade e beleza que revestiam o rapaz naquele dia e nos outros, tinha alguma coisa que ela não sabia o quê. Os amigos dela foram embora e ela ficou, sempre era a última a sair das festas. Tinha uma inércia que agia sobre o corpo dela que a impedia de ir embora.
Eles se beijavam e a música ensurdecia ambos, violentava o abraço dos dois obrigando-os a se mexer. Dançavam e se beijavam. Ele parecia bem mas ela estava bêbada, sabia disso. Pediu pra ir embora, o lugar estava quase vazio. Ele disse que a levava e perguntou sobre o caminho. Ela explicava que não conhecia a cidade direito, que tinha vindo de carona, foi dando referências. Saíram no carro dele e ela pensava como era arriscado ir embora com um cara que tinha acabado de conhecer. Ele era calmo no carro, diferente de tudo que ela tinha visto naquela noite. Ele quase não falava, só ficava ali perguntando umas coisas referentes ao caminho que ela não sabia responder. Os olhos tinham parado de sorrir e pareciam mais reais.
Ela pediu pra parar o carro, precisava vomitar. O carro encostou, ela abriu a porta, se encostou na lateral e vomitou. Vomitou muito e quando levantou a cabeça ele fazia xixi encostado no muro. Não sabe como chegaram na casa dela. Ela pensava que sempre aprontava dessas: vomitar com um cara que tinha acabado de conhecer. Sempre exagerava em tudo, falava alto, bebia demais, falava demais. Convidou ele pra subir. No elevador ela estava mole e ele ajudava a segurá-la. Entraram e ela apresentou o apartamento pequeno. Foi ao banheiro e instalou o bonitão na cama. Ele não dizia nada e parecia disposto a encarar o que viesse, estava tranquilo. Ela trocou a roupa por um pijama, disse pra ele que podia dormir ali e dormiu.
Quando ela acordou o bonitão tinha ido embora. Estava com uma bela ressaca, é claro. Pensava na noite anterior e lamentava o exagero. Lamentava que o bonitão tivesse ido, lamentava que tivesse bebido tanto, lamentava pela ressaca. Levantou e foi até a cozinha pra beber água. Viu do lado do telefone o nome e o número dele anotados com uma letra caprichada de homem.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

EUA atacam Brasil. Lula revida?

Numa manobra arriscada no contexto da política internacional EUA atacam o Brasil, o emergente mais queridinho do momento. Obama tem lançado celebridades pop sobre o Rio de Janeiro, elas vêm armadas até os dentes com suas minissaias, paetês, dietas de última geração, gemidos, perucas, grammys, etc. A questão é: porque o Rio? Sabemos que muitos gringos acreditam que o Rio é a capital do Brasil, mas é claro que Obama não é um deles. A sua estratégia é mais refinada do que se poderia pensar? Ou se trata simplesmente de vingança? A meu ver, a exemplo da guerra empreendida contra o terror, é uma questão de vingança. Michelle ainda não se conformou por ter perdido as olimpíadas de 2016.
Agora é urgente pensar no contra-ataque. Se Lula ainda não tem uma resposta à altura, eu sei o que fazer. Lancemos nossas celebridades baianas, nossas maternais cantoras de axé sobre Nova Iorque, elas vão fazer tremer o chão por lá. Mas só depois do carnaval, é claro!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

os atores andaram no shopping e foram expulsos

Eram dois meninos e duas meninas que andavam. Andaram em diversas direções, em diversos ritmos. Relacionaram-se com o lugar espacialmente, topograficamente, gestualmente, cinestesicamente. Andavam. Olhando de longe pareciam estranhos, de perto apenas andavam. Aos que sabem ver pareceria normal, andavam de olhos abertos.
Na cidade, atores penduravam-se em prédios, escalavam o público institucionalmente.
Os meninos que andavam não estavam autorizados, sim, é necessário estar autorizado. Para andar e olhar no shopping em grupo (ainda que seja um pequeno grupo) é preciso autorização. Ainda que seja na rua, na calçada do shopping necessita-se autorização.
Sim, é necessário se institucionalizar, pedir autorização às instâncias superiores, ajoelhar-se e pedir: Senhor, posso andar pelas suas calçadas? Posso escalar seu prédio em troca de bilheteria e publicidade? Posso ser artista no seu espaço? Posso ser?

NÃO AUTORIZADO.
Por favor, encaminhe um e-mail para o depto de marketing com a descrição do evento e pedido de autorização.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

30

São estranhos 30, assim redondos, definitivos. Parece que explicam tudo, no entanto, se fossem 31 seriam menos estranhos. Parece que tudo está explicado assim: Flávia, 30 anos. Exatos.
Quase exatos. O tempo se mede em anos, dias ou horas e as horas são muito mais misteriosas que os anos. Quanto mais fragmento o tempo mais infinito ele fica. E os segundos então, os segundos! Tantos segundos passados, intensos e decisivos me confundem em relação a esse tempo tão exato. Afinal, como são os 30? Pra mim são um mistério, incontáveis minutos passados e imprevisíveis segundos futuros.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

gato por lebre

Saiu de casa com o roteiro definido: locadora, supermercado e banco. Era um início de tarde tranquilo, sem grandes compromissos ou possibilidade de estresse, afinal era tudo pertinho de casa.
Passou na locadora onde queriam cobrar o valor de lançamento sobre o filme que tinha alugado. O que lhe pareceu problema foi o fato de o filme ter sido realizado há uns quinze anos, inclusive ele já tinha assistido o filme em vhs. Ele tentou argumentar com o atendente – olha, eu não sabia que esse filme era lançamento, afinal o filme é velho. O rapaz estava preparado – mas esse filme é lançamento em dvd. Ele não entendia qual a lógica – amigo, que eu tenho a ver com o fato de você ter comprado o filme só agora? se lançaram em dvd ou blue ray ou a putaqueopariu? você devia pelo menos ter me avisado que se tratava de um “lançamento” - fez as aspas com as mãos apesar de odiar esse gesto. O rapaz da locadora continuava – mas o senhor não viu a etiqueta laranja? etiqueta laranja é lançamento. Ele olhou para a etiqueta laranja, uma bolinha laranja na verdade, colada na capa igualmente laranja do filme – ô meu filho, isso é piada? etiqueta laranja? pra começar onde está a legenda das etiquetas? - olhava ao redor e nas paredes e não havia legendas – sou obrigado a adivinhar o significado das bolinhas coloridas? O rapaz parecia determinado a irritá-lo, repetia as mesmas frases e parecia acreditar que assim explicava o mal-entendido. Saiu da locadora com uma certeza, cada dia mais vendia-se gato por lebre. Lançamento? Quando assistiu o filme pela primeira vez tinha uns quinze anos. Que idéia genial essa de transformar um filme antigo em lançamento, praticamente sem custo nenhum. Incrível que só ele pensasse assim.
A próxima parada, no supermercado parecia fácil, era só comprar ovos, tomates, alface e queijo. Foi direto às prateleiras certas, não gostava de ficar zanzando no mercado. Ele olhou para os tomates com desânimo, pareciam bonitos de longe, mas de perto dava pra perceber que a maioria tinha um pedaço podre ou um amassado e o cheiro nem de longe lembrava tomate de verdade. Escolheu como pôde e conseguiu selecionar quatro tomates. A alface estava toda amassada também, algumas folhas mais machucadas estavam pretas. Pegou um pé de alface que parecia quase intacto. Queijo fatiado e ovo pelo menos não tinha que escolher. Olhou as bandejas de ovos e lembrou-se que tinha tamanhos diferentes de ovos, médio, grande e extra. Escolheu o grande e foi em direção ao caixa. Nota paulista?
Foi ao banco pagar uma conta de luz, o caixa eletrônico prometia ser mais rápido que a fila dentro da agência. Enfiou o cartão e foi escolhendo: pagamentos – com códigos de barras – posicione o código para leitura – uma, duas, três vezes... nada. Mudou de caixa, evidentemente aquele estava com problema na leitura. Tentou novamente, o mesmo: uma, duas, três vezes e nada. O caixa eletrônico já não parecia tão atraente, a fila da agência talvez fosse uma opção. Mas não podia se conformar, a porra do caixa eletrônico não estava ali pra facilitar? e afinal ele pagava taxas além da mensalidade da conta que deveriam garantir algum conforto. Entrou intempestivo na agência a procura de alguém com quem pudesse reclamar, o gerente, por exemplo. Logo uma mocinha o alcançou – pois não senhor, posso ajudá-lo? Eu só quero pagar uma conta de luz. No caixa eletrônico?. Sim. Eu vou ajudar o senhor. Eu não preciso de ajuda, só quero que essa merda de caixa funcione. O senhor tentou aquele ali? Não querida, ainda não tentei todos. Ele tentou no caixa indicado que devia ser o único que funcionava direito e conseguiu finalmente pagar sua conta.
No caminho para casa pensava se era só ele que se incomodava com essas mentiras contemporâneas. Caixa eletrônico, pagamento com código de barras que não funcionava. Filmes velhos que de repente voltam a ser lançamentos. Lixo a venda no supermercado nas prateleiras de verduras. Como se acalmar? Como se acalmar e pagar? Porque a cobrança vinha sempre, no caixa, pelo correio, na maquininha do visa.
Entrou em casa, feliz por estar de certa forma salvo. Foi guardar as compras na geladeira. Os ovos grandes não eram tão grandes assim quando se abria a caixinha, pareciam mais ovos de garnisé. O engano continuava.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

dia primeiro

- Nunca vamos poder casar na igreja.
Ela estranhou um pouco a fala, mas nem tanto, já tinha ouvido piores.
- Porquê?
- Não temos nenhuma religião, nem acreditamos em deus. Não faz sentido a gente casar na igreja.
- É verdade. Tava pensando em casamento?
- Tava pensando em várias coisas, deus e tal... e percebi que não podemos casar na igreja.
Os fogos ainda explodiam e ela pensava em quantas vezes já tinha dito o que pensava sobre cerimônias de casamento. Achava um absurdo assinar qualquer tipo de documento, fazer qualquer tipo de juramento diante de juiz ou padre, convocar testemunhas, etc. Achava que o casamento só era possível como combinado entre os dois. Há alguns meses ela havia explicado tudo que pensava sobre o assunto. Tinha certeza de que havia falado tudo. Porque ele não ouviu? Talvez pensasse que era desculpa para evitar um compromisso maior. Maior? Como poderia se comprometer ainda mais? Achava que ele tinha começado com a história de casamento oficial para disfarçar todas as cagadas que tinham acontecido no casamento real deles. Como se até o momento tudo tivesse sido brincadeirinha. Mais uma razão pra ela não cair nessa cilada de casamento com padre e juiz. Não ia admitir essa saída. Lá estava ela no primeiro dia do ano pensando nas mesmas coisas...
- Você viu que essa árvore parece um gato?
Ele concordou, mas achava mais parecida com uma coruja.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

pesadelos, prazos, técnicas e listas

Hoje eu tive um pesadelo horrível, sei que essa é a característica principal dos pesadelos, mas vale a pena frisar. No meio do pesadelo meu celular me acordou, era o monstro dos meus sonhos que ligou pra dizer que não vinha almoçar. Tenho categorias de pesadelos que se repetem, o que me irrita porque quando começa eu já sei no que vai dar. Às vezes os sonhos se tornam realidade e às vezes a realidade é pior que o sonho. Por isso quando tenho um pesadelo ele não fica apenas no mundo dos sonhos mas se apresenta como nova ou velha possibilidade de terror real.

Nessas férias vou trabalhar bastante, tenho que finalizar a primeira fase da minha pesquisa para elaborar o relatório parcial da bolsa. Isso significa, além do prazer de pesquisar, que existem prazos a cumprir. Os prazos são um mini terror pra mim, tem coisa pior que prazos finais? A pesquisa, por outro lado, é uma delícia. Eu tenho preguiça de começar mas quando começo fica difícil parar. Pesquisa é droga para o meu cérebro e ele está cada dia mais viciado. É claro que o meio onde se realiza a pesquisa contribui para o vício. A internet é uma maravilha mesmo, mas não tenho dúvida que influencia na formação de nossas neuroses. É tudo tão fácil de achar, tão rápido, num clique... Só mais um clique, só mais um, só mais um, mais um...

Por falar em pesquisa... É impressionante observar o quanto as técnicas ficam em nosso corpo. Já observo a questão das técnicas corporais há um tempo e tenho várias hipóteses sobre como se relacionar com as tais. É claro pra mim que as técnicas não são inocentes, elas ficam em nós de alguma forma e nem sempre isso é bom. Mas ia falar sobre a técnica da escrita, a escrita acadêmica é uma praga. Quanta dificuldade pra me livrar dela... o blog tem sofrido por isso. Mas não desisto, sigo minha cruzada contra e a favor das técnicas, tudo ao mesmo tempo.

Mesmo sem querer acabei pensando nos meus objetivos para 2010, a famosa lista de ano novo. Até o momento minha lista tem dois itens: emagrecer os quilos que vou engordar no natal e parar de fumar. Talvez eu ainda exclua algum item, nada de começar o ano cheia de tarefas! Quanto ao balanço de 2009 deixo para outros, é muito acontecimento pra balançar alguma coisa. Basta perceber que fui mais feliz que infeliz e que voltei a fumar e não parei mais.