- Você tem cara de quem gosta de música gospel.
- É mesmo?
- Você não gosta?
- Hum... não.
- É porque você nunca ouviu.
- Já ouvi sim.
- Então você não ouviu com o coração aberto.
- É possível.
- Eu também não gostava, se você ouvir de coração aberto vai gostar.
- Não vou, não.
- Claro que vai, te garanto.
- Não.
Fez aquela cara de assunto encerrado e um sorriso, pra ele entender que não era má nem tinha simpatia pelo demônio.
Esse episódio me leva a duas conclusões:
1- as aparências enganam.
2- nós atribuímos as qualidades que prezamos às pessoas que nos agradam, independente das evidências que digam o contrário.
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
terça-feira, 7 de agosto de 2007
Ressaca
Ressaca é das piores coisas que existem, tenho pra mim que é coisa do diabo.
Aliás, pensando bem, só pode ser castigo divino. É deus se divertindo lá em cima enquanto você vomita, ninguém mandou se divertir ontem. A ressaca é a arma divina contra as tentações mundanas, ai adoro essa palavra, mundana.
É injusto que as coisas boas resultem em tanto sofrimento, por essas e outras não curto mais deus, depois que comecei a me divertir vi que ele era um recalcado. Onde já se viu, por causa de algumas horas de diversão e bebedeira um dia inteiro de dor de cabeça, vômito e vertigem?
Mas pior que estar de ressaca é estar de ressaca e ter que trabalhar, tortura dobrada pra quem arrisca uma diversão no meio da semana. E pode ter certeza que justo no dia que você estiver com aquela mega ressaca seu chefe vai te pedir um trabalho que exija concentração. Sabe aquele negócio chato que ele deixou acumular o mês inteiro? Ele tava só esperando o dia que você ia chegar de ressaca pra te mandar fazer (com urgência). Porque sim, ele está crente que é deus e odeia imaginar que você se diverte.
Por isso recomendo matar o trabalho nesses dias, é melhor pra todo mundo. Ninguém vai ter que fingir que não te viu vomitar no banheiro, seu chefe vai ficar na ilusão de que você está realmente doente e você vai manter a dignidade que te resta abraçada ao vaso sanitário da sua casa. De preferência sem ninguém por perto.
Eu posso falar de ressaca porque é um assunto que conheço bem, conheço muita gente que bebe mais que eu, mas ninguém que tenha mais ressaca. Qualquer pinguinha que eu tomo já me dá aquele enjôo, meia dúzia de cervejas e começo a gorfar (gorfar: vomitar sem muita classe). Segundo a minha mãe, que está ao lado de deus no quesito provocar arrependimento e culpa, essa minha sensibilidade à bebida é graças ao meu fígado frágil, consequência da hepatite na infância. No dia seguinte já acordo com aquela dor de cabeça que promete durar o dia todo, vomito o que tiver sobrado da noite anterior e caio na cama de novo. O ritual se repete várias vezes ao longo do dia, interrompido por algumas tentativas de ingerir neosaldinas e gatorade.
Aliás, aí vai minha receita pra ressaca: após o primeiro gorfo do dia tome um longo banho, uma neosaldina e gatorade sabor frutas cítricas*. Não se esqueça, comece o tratamento após o primeiro gorfo porque as possibilidades de vomitar a neosaldina diminuem. Não é aconselhável vomitar bile o dia todo, portanto tome algum líquido que propicie um vômito mais saudável e digno. Se possível encerre o dia com uma canja.
Pra finalizar as dicas sobre bebedeira, vai aí uma que nunca funciona mas você pode tentar. Quando o diabo vier te tentar com aquela baladinha super bacana durante a semana lembre-se da fúria divina, tente lembrar dos momentos que passou curtindo ressaca, lembre-se das promessas ajoelhada em frente ao vaso. Se nada disso adiantar tome um engov antes, um depois e boa sorte.
* na verdade o gatorade pode ser de qualquer sabor, é que esse é meu preferido.
Aliás, pensando bem, só pode ser castigo divino. É deus se divertindo lá em cima enquanto você vomita, ninguém mandou se divertir ontem. A ressaca é a arma divina contra as tentações mundanas, ai adoro essa palavra, mundana.
É injusto que as coisas boas resultem em tanto sofrimento, por essas e outras não curto mais deus, depois que comecei a me divertir vi que ele era um recalcado. Onde já se viu, por causa de algumas horas de diversão e bebedeira um dia inteiro de dor de cabeça, vômito e vertigem?
Mas pior que estar de ressaca é estar de ressaca e ter que trabalhar, tortura dobrada pra quem arrisca uma diversão no meio da semana. E pode ter certeza que justo no dia que você estiver com aquela mega ressaca seu chefe vai te pedir um trabalho que exija concentração. Sabe aquele negócio chato que ele deixou acumular o mês inteiro? Ele tava só esperando o dia que você ia chegar de ressaca pra te mandar fazer (com urgência). Porque sim, ele está crente que é deus e odeia imaginar que você se diverte.
Por isso recomendo matar o trabalho nesses dias, é melhor pra todo mundo. Ninguém vai ter que fingir que não te viu vomitar no banheiro, seu chefe vai ficar na ilusão de que você está realmente doente e você vai manter a dignidade que te resta abraçada ao vaso sanitário da sua casa. De preferência sem ninguém por perto.
Eu posso falar de ressaca porque é um assunto que conheço bem, conheço muita gente que bebe mais que eu, mas ninguém que tenha mais ressaca. Qualquer pinguinha que eu tomo já me dá aquele enjôo, meia dúzia de cervejas e começo a gorfar (gorfar: vomitar sem muita classe). Segundo a minha mãe, que está ao lado de deus no quesito provocar arrependimento e culpa, essa minha sensibilidade à bebida é graças ao meu fígado frágil, consequência da hepatite na infância. No dia seguinte já acordo com aquela dor de cabeça que promete durar o dia todo, vomito o que tiver sobrado da noite anterior e caio na cama de novo. O ritual se repete várias vezes ao longo do dia, interrompido por algumas tentativas de ingerir neosaldinas e gatorade.
Aliás, aí vai minha receita pra ressaca: após o primeiro gorfo do dia tome um longo banho, uma neosaldina e gatorade sabor frutas cítricas*. Não se esqueça, comece o tratamento após o primeiro gorfo porque as possibilidades de vomitar a neosaldina diminuem. Não é aconselhável vomitar bile o dia todo, portanto tome algum líquido que propicie um vômito mais saudável e digno. Se possível encerre o dia com uma canja.
Pra finalizar as dicas sobre bebedeira, vai aí uma que nunca funciona mas você pode tentar. Quando o diabo vier te tentar com aquela baladinha super bacana durante a semana lembre-se da fúria divina, tente lembrar dos momentos que passou curtindo ressaca, lembre-se das promessas ajoelhada em frente ao vaso. Se nada disso adiantar tome um engov antes, um depois e boa sorte.
* na verdade o gatorade pode ser de qualquer sabor, é que esse é meu preferido.
segunda-feira, 6 de agosto de 2007
Segundo tempo
Pode não parecer mas estou super animada.
Esse sábado tive uma reunião de trabalho que foi ótima. Eu e a Renata Kamla estamos gestando a nova peça há algum tempo. Conversando, definindo o que queremos dizer e como. O que tínhamos de certo é que seria uma continuação da pesquisa do "Tempo", não que vá ser igual, aliás acho que será bem diferente, mas que seja uma linha contínua do nosso trabalho. A grande diferença a princípio, foi que chamamos um amigo pra escrever a peça, num processo meio que colaborativo. Na verdade ainda não sei ao certo como classificar o 'processo', uma vez que estamos no meio desse processo que não sei como será.
Pra começar, fizemos algumas reuniões com o Daniel, sim, esse é o nome do rapaz dramaturgo, pra ele entender um pouco o que queríamos e como ele poderia ajudar. Ele gostou das idéias e topou. Acontece que o Daniel é meu amigo, é da minha geração (estamos nos 20 ainda, viu Dani?), tem um humor bem parecido com o meu e escreve de um jeito que me agrada muito. Será que vai dar certo? Depois de algumas conversas com as duas malucas demos um tempo pra ele escrever e sábado eles nos entregou as primeiras páginas. Amei. Ficou super a nossa cara e ao mesmo tempo a cara de uma geração, essa entre 20 e 35 anos. Algumas páginas de muita verdade e humor.
Fiquei tão animada que tô doida pra começar os ensaios, que aliás começam essa semana. Ainda não sabemos exatamente como será a peça, afinal ela será construída nos próximos meses, mas garanto que haverá unhas e sapatos vermelhos, sexo e ressaca, e um tantinho de reflexão, afinal não somos vazios.
É bem provável que, graças a esse estímulo criativo que é ensaiar e construir uma peça, eu escreva novos textos que podem ou não ser usados no espetáculo, o que não for usado publicarei por aqui. E estou pensando seriamente em criar um blog pra peça, pra não ficar muita zona aqui e também pra dividir essa experiência com quem quiser. Além do mais, me obrigaria a organizar os eventos e ter mais cuidado com as descobertas diárias. Bem, tá quase decidido que esse blog vai existir.
Vamos começar a ensaiar pra ver o que acontece, em breve novidades.
Esse sábado tive uma reunião de trabalho que foi ótima. Eu e a Renata Kamla estamos gestando a nova peça há algum tempo. Conversando, definindo o que queremos dizer e como. O que tínhamos de certo é que seria uma continuação da pesquisa do "Tempo", não que vá ser igual, aliás acho que será bem diferente, mas que seja uma linha contínua do nosso trabalho. A grande diferença a princípio, foi que chamamos um amigo pra escrever a peça, num processo meio que colaborativo. Na verdade ainda não sei ao certo como classificar o 'processo', uma vez que estamos no meio desse processo que não sei como será.
Pra começar, fizemos algumas reuniões com o Daniel, sim, esse é o nome do rapaz dramaturgo, pra ele entender um pouco o que queríamos e como ele poderia ajudar. Ele gostou das idéias e topou. Acontece que o Daniel é meu amigo, é da minha geração (estamos nos 20 ainda, viu Dani?), tem um humor bem parecido com o meu e escreve de um jeito que me agrada muito. Será que vai dar certo? Depois de algumas conversas com as duas malucas demos um tempo pra ele escrever e sábado eles nos entregou as primeiras páginas. Amei. Ficou super a nossa cara e ao mesmo tempo a cara de uma geração, essa entre 20 e 35 anos. Algumas páginas de muita verdade e humor.
Fiquei tão animada que tô doida pra começar os ensaios, que aliás começam essa semana. Ainda não sabemos exatamente como será a peça, afinal ela será construída nos próximos meses, mas garanto que haverá unhas e sapatos vermelhos, sexo e ressaca, e um tantinho de reflexão, afinal não somos vazios.
É bem provável que, graças a esse estímulo criativo que é ensaiar e construir uma peça, eu escreva novos textos que podem ou não ser usados no espetáculo, o que não for usado publicarei por aqui. E estou pensando seriamente em criar um blog pra peça, pra não ficar muita zona aqui e também pra dividir essa experiência com quem quiser. Além do mais, me obrigaria a organizar os eventos e ter mais cuidado com as descobertas diárias. Bem, tá quase decidido que esse blog vai existir.
Vamos começar a ensaiar pra ver o que acontece, em breve novidades.
Caixa postal
Sai e fecha a porta, por favor.
Cansei de ouvir, dizer, lembrar, blá blá e etc.
E o mais importante sempre tá na etecétera.
O mal mesmo, tá na etecétera.
Sai, por favor. Tenho um encontro marcado.
Eu, minha televisão e um baseado.
Eu, o pano de chão e o supermercado.
Sai e fecha a porta.
Meu status está offline e posso não responder.
Essa pessoa está programada pra não receber chamadas.
Deixe sua mensagem após o sinal. Beeeep.
Cansei de ouvir, dizer, lembrar, blá blá e etc.
E o mais importante sempre tá na etecétera.
O mal mesmo, tá na etecétera.
Sai, por favor. Tenho um encontro marcado.
Eu, minha televisão e um baseado.
Eu, o pano de chão e o supermercado.
Sai e fecha a porta.
Meu status está offline e posso não responder.
Essa pessoa está programada pra não receber chamadas.
Deixe sua mensagem após o sinal. Beeeep.
sexta-feira, 3 de agosto de 2007
Me explico
A história anterior, e toda essa morbidez é pra relembrar porque minha vida mudou completamente de rumo. Foi por isso. E prometo não explicar mais nada nesse blog.
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
30 de janeiro
Acordou.
Onde eu tô? Sempre que eu durmo na minha vó acordo sem saber onde estou.
Mas eu não tenho mais 5 anos. Onde eu tô? Tá quente. Maior sol.
Tava indo pra São Paulo, amanhã é meu aniversário. 21 anos. Ontem fui na pizzaria.
Saímos 13:10 hs. Onde eu tô?
- A moça acordou.
- Onde eu tô?
- Você sofreu um acidente, moça. Lembra um telefone pra gente avisar?
- 9357-2367
Olhou pro lado, o namorado ensanguentado. Piscou e o tempo passou. Acordou, a mão ensanguentada. Cheia de cacos de vidro. Calor. Era verão e verão no interior é quente de verdade. Do lado ele gemia e uma coisa parecida com ronco.
- E minha sogra, ela também tá...
- Já chamamos o resgate, moça. Devem estar chegando. Fica calma, viu?
Piscou e o resgate chegou. Piscou e abriram a porta. Piscou.
- Vamos tirar ele primeiro.
- Ele tá bem?
- Fica calma moça.
Todo mundo mandava ficar calma e ela estava calma mesmo. Chorava lágrimas quentes e calmas. Suava com aquele calor. Ele gemendo e roncando.
- Agora vamos tirar você, você vai sentir um pouco de dor. Fica calma.
Piscou e estava dentro da ambulância, sabia pela sirene.
- Batimento 180, abre o soro.
- Tá muito alto, né?
- Fica calma que estamos cuidando de você.
- E ele?
- Não se preocupa. Parece que está tudo bem.
- E minha sogra?
- Ela foi em outra ambulância.
- Ela tá bem?
- Não sei.
Piscava e girava. Vou morrer na ambulância, manda ir mais devagar. Eu vou cair. Piscava e girava. Me segura que eu vou cair.
- Eu vou cair.
- Calma moça.
Piscou e estava no hospital. Muita gente de branco correndo com ela.
- Dói aqui?
- Não.
- E aqui?
- Não.
- Tá doendo minhas costas.
- É sua bolsa e seu sapato que estão aqui, guarda pra ela. Leva pro raio x. Depois a gente tira o colete, tá?
Piscava e girava. Piscava e doía. Piscava e esquecia. Piscava e o corredor não acabava.
- E o meu namorado?
- Ele está sendo atendido também.
Piscava e raio x. Piscava e rodava. Rodava e doía.
- Parece que tá tudo bem. Vamos tirar o colete e você vai fazer mais um raio x, tá? Acho que quebrou uma costela, mas vamos conferir sem o colete.
Tiraram o colete e cortaram a calça preferida, a blusa que ganhou de presente, o único sutiã branco. Chorou.
- Adoro essa calça.
- Fica calma moça.
- Você é enfermeira? Quantos anos você tem?
- 21.
- Eu vou fazer 21 amanhã.
Chorava de gratidão agora. De alegria e gratidão. Ia fazer aniversário amanhã. A enfermeira chorava. 21 anos. Olhou pro lado e ele estava ali, olhos fechados e cheio de sangue. Chorou.
- Fica calma, ele está bem. Só bateu a cabeça, mas tá tudo bem.
- E minha sogra?
- Não sei, só chegaram vocês dois. Ela pode estar em outro hospital.
Levaram ele embora e ela não conseguia perguntar pra onde. Injeção, curativo e mais soro.
- Esse é o paramédico que te resgatou, ficou pra ver como você estava.
- Eu tô bem. Obrigada.
- Você nasceu de novo.
- Amanhã é meu aniversário.
O paramédico chorava. Ela sorria e chorava. Precisava avisar alguém.
- Tem um celular tocando. É dela.
- Alô. Mais ou menos. Batemos o carro. Tá tudo bem, estamos no hospital. Ele tá fazendo uns exames. Ela não veio pra cá, tenta descobrir onde ela está. Eu tô bem, sim. Liga daqui a pouco, chegou um policial pra falar comigo.
- Você lembra o que aconteceu Flávia?
- Não.
- Pra onde vocês iam?
- Pra São Paulo.
- Você lembra da batida?
- Não. Como foi?
- Outro carro bateu em vocês.
- Lembra o número do seu RG?
- 297434464.
- É só isso, pode descansar.
- Você sabe da minha sogra? Ela tava no carro com a gente.
- Infelizmente...
Ela não escutava mais.
... ela faleceu, Flávia.
Não entendia mais.
... Eu sinto muito.
Ela piscou e recomeçou a girar. O celular tocava. Nada estava no mesmo lugar.
O foco estava aceso e ela não sabia o que dizer, não conhecia o texto, não tinha ensaiado. Essa porra de pesadelo de novo? Não podia atender o celular, nem abandonar o palco. O foco estava aceso e estava sozinha. Piscou querendo acordar. Tudo tinha mudado de lugar. O celular não ia parar. Não tinha texto. O foco. Ela.
- Alô.
Onde eu tô? Sempre que eu durmo na minha vó acordo sem saber onde estou.
Mas eu não tenho mais 5 anos. Onde eu tô? Tá quente. Maior sol.
Tava indo pra São Paulo, amanhã é meu aniversário. 21 anos. Ontem fui na pizzaria.
Saímos 13:10 hs. Onde eu tô?
- A moça acordou.
- Onde eu tô?
- Você sofreu um acidente, moça. Lembra um telefone pra gente avisar?
- 9357-2367
Olhou pro lado, o namorado ensanguentado. Piscou e o tempo passou. Acordou, a mão ensanguentada. Cheia de cacos de vidro. Calor. Era verão e verão no interior é quente de verdade. Do lado ele gemia e uma coisa parecida com ronco.
- E minha sogra, ela também tá...
- Já chamamos o resgate, moça. Devem estar chegando. Fica calma, viu?
Piscou e o resgate chegou. Piscou e abriram a porta. Piscou.
- Vamos tirar ele primeiro.
- Ele tá bem?
- Fica calma moça.
Todo mundo mandava ficar calma e ela estava calma mesmo. Chorava lágrimas quentes e calmas. Suava com aquele calor. Ele gemendo e roncando.
- Agora vamos tirar você, você vai sentir um pouco de dor. Fica calma.
Piscou e estava dentro da ambulância, sabia pela sirene.
- Batimento 180, abre o soro.
- Tá muito alto, né?
- Fica calma que estamos cuidando de você.
- E ele?
- Não se preocupa. Parece que está tudo bem.
- E minha sogra?
- Ela foi em outra ambulância.
- Ela tá bem?
- Não sei.
Piscava e girava. Vou morrer na ambulância, manda ir mais devagar. Eu vou cair. Piscava e girava. Me segura que eu vou cair.
- Eu vou cair.
- Calma moça.
Piscou e estava no hospital. Muita gente de branco correndo com ela.
- Dói aqui?
- Não.
- E aqui?
- Não.
- Tá doendo minhas costas.
- É sua bolsa e seu sapato que estão aqui, guarda pra ela. Leva pro raio x. Depois a gente tira o colete, tá?
Piscava e girava. Piscava e doía. Piscava e esquecia. Piscava e o corredor não acabava.
- E o meu namorado?
- Ele está sendo atendido também.
Piscava e raio x. Piscava e rodava. Rodava e doía.
- Parece que tá tudo bem. Vamos tirar o colete e você vai fazer mais um raio x, tá? Acho que quebrou uma costela, mas vamos conferir sem o colete.
Tiraram o colete e cortaram a calça preferida, a blusa que ganhou de presente, o único sutiã branco. Chorou.
- Adoro essa calça.
- Fica calma moça.
- Você é enfermeira? Quantos anos você tem?
- 21.
- Eu vou fazer 21 amanhã.
Chorava de gratidão agora. De alegria e gratidão. Ia fazer aniversário amanhã. A enfermeira chorava. 21 anos. Olhou pro lado e ele estava ali, olhos fechados e cheio de sangue. Chorou.
- Fica calma, ele está bem. Só bateu a cabeça, mas tá tudo bem.
- E minha sogra?
- Não sei, só chegaram vocês dois. Ela pode estar em outro hospital.
Levaram ele embora e ela não conseguia perguntar pra onde. Injeção, curativo e mais soro.
- Esse é o paramédico que te resgatou, ficou pra ver como você estava.
- Eu tô bem. Obrigada.
- Você nasceu de novo.
- Amanhã é meu aniversário.
O paramédico chorava. Ela sorria e chorava. Precisava avisar alguém.
- Tem um celular tocando. É dela.
- Alô. Mais ou menos. Batemos o carro. Tá tudo bem, estamos no hospital. Ele tá fazendo uns exames. Ela não veio pra cá, tenta descobrir onde ela está. Eu tô bem, sim. Liga daqui a pouco, chegou um policial pra falar comigo.
- Você lembra o que aconteceu Flávia?
- Não.
- Pra onde vocês iam?
- Pra São Paulo.
- Você lembra da batida?
- Não. Como foi?
- Outro carro bateu em vocês.
- Lembra o número do seu RG?
- 297434464.
- É só isso, pode descansar.
- Você sabe da minha sogra? Ela tava no carro com a gente.
- Infelizmente...
Ela não escutava mais.
... ela faleceu, Flávia.
Não entendia mais.
... Eu sinto muito.
Ela piscou e recomeçou a girar. O celular tocava. Nada estava no mesmo lugar.
O foco estava aceso e ela não sabia o que dizer, não conhecia o texto, não tinha ensaiado. Essa porra de pesadelo de novo? Não podia atender o celular, nem abandonar o palco. O foco estava aceso e estava sozinha. Piscou querendo acordar. Tudo tinha mudado de lugar. O celular não ia parar. Não tinha texto. O foco. Ela.
- Alô.
quarta-feira, 1 de agosto de 2007
chega mais
Encosta sua cabeça no meu colo, colo foi feito pra isso.
Emaranha meu cabelo nos dedos, cabelo é pra isso mesmo.
Respira aqui no meu pescoço, que pescoço só serve pra isso.
Bota a mão na minha coxa, a boca na boca, a boca no peito, mão na bunda, boca no umbigo, a mão mais perto, que tudo converge pro centro. Pra dentro. Eu gosto, bobo.
E vamos ser felizes que a vida é nada, alguém já disse. E eu digo que é tudo. Eu te mostro que é tudo, é só me dar sua mão, sua boca.
Não precisa falar nada, se chegue e se aconchegue.
Eu sou a oferta do dia.
Aproveite.
Emaranha meu cabelo nos dedos, cabelo é pra isso mesmo.
Respira aqui no meu pescoço, que pescoço só serve pra isso.
Bota a mão na minha coxa, a boca na boca, a boca no peito, mão na bunda, boca no umbigo, a mão mais perto, que tudo converge pro centro. Pra dentro. Eu gosto, bobo.
E vamos ser felizes que a vida é nada, alguém já disse. E eu digo que é tudo. Eu te mostro que é tudo, é só me dar sua mão, sua boca.
Não precisa falar nada, se chegue e se aconchegue.
Eu sou a oferta do dia.
Aproveite.
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