numa dessas lacunas que eu entrei: de algo que devia estar lá e não tava, me esmerei no verso manco e nas metáforas cotidianas, pra atravessar aquele espaço, mas o buraco era faminto
minhas pobres metáforas não puderam me levar, apegadas com o calor pesado da carne,
[vejo pela janela um guia turístico que explica em inglês pra uns gringos o que é a consolation's church, lembro que isso acontece todo sábado e penso: que gringos são esses?]
voltando àquela lacuna (não consigo voltar quando lá fora tem um helicóptero e trovões)
voltando à nossa lacuna (enquanto baixo um filme)
voltando
tem uma tal marcha da família
voltando: consegui entender o que não gosto no woody allen, a ênfase nas confusões semânticas da comunicação amorosa, levadas ao paroxismo pela ausência de ação, se a gente pensar que fala é ação, então tem que ser corpo essa fala, entende? quando sai disso eu gosto, quando ele não atua, quando as atrizes arrebentam, etc
mas você gosta muito dos diálogos
voltando à fresta que eu entrei, apesar de pequena na entrada é bem espaçosa e agradável
tem um quê de casa no campo com lareira acesa, flor no cabelo e meia felpudinha
chá de camomila quase morno e dedos enlaçados
[meu download terminou, preciso procurar as legendas]
lembrei o que não gosto em mim também. esse amor pelo vazio, pela negação, pela ausência. o abandono do que é encontro e concordância. essa bandeira frouxa e esburacada da minha liberdade! essas exclamações, essa escrita. esse ridículo.
a busca pela rejeição que cria essas lacunas, buracos negros onde tudo está por existir e a engolir o que poderia ser.
domingo, 23 de março de 2014
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
não se nasce mulher
tornei-me mulher quando amanheceu
joguei o chapéu e a bengala encostada
desci da cama de um pulo
uma gata alongada
(eu percebi de relance)
mulher barata grogue dos sonhos
me vi olhando no espelho
a macheza ainda estava lá
guardei uma mecha de cabelo atrás da orelha e dei um sorriso
pequeno como convém
então a gata se lambeu bem na minha frente
lambida na própria virilha
de um susto mordi a língua que sangrou
sem choro
morno
do sangue bebido virou um feitiço
que virou lágrima de gozo
que virou tudo no oposto
e arrepio de quarta-feira de cinzas
com tempo chuvoso
da boca saiu um riso engasgado
que fugiu pela janela rasgando a cortina
e caiu na boca de outra mulher que acordava naquela hora
do peito brotou um leite inexplicado
que de poça se fez correnteza, arrastando tudo pra fora
joguei o chapéu e a bengala encostada
desci da cama de um pulo
uma gata alongada
(eu percebi de relance)
mulher barata grogue dos sonhos
me vi olhando no espelho
a macheza ainda estava lá
guardei uma mecha de cabelo atrás da orelha e dei um sorriso
pequeno como convém
então a gata se lambeu bem na minha frente
lambida na própria virilha
de um susto mordi a língua que sangrou
sem choro
morno
do sangue bebido virou um feitiço
que virou lágrima de gozo
que virou tudo no oposto
e arrepio de quarta-feira de cinzas
com tempo chuvoso
da boca saiu um riso engasgado
que fugiu pela janela rasgando a cortina
e caiu na boca de outra mulher que acordava naquela hora
do peito brotou um leite inexplicado
que de poça se fez correnteza, arrastando tudo pra fora
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
rosicleide
nas sextas-feiras que a cleide vem limpar nossa casa eu arrumo o quarto antes de abrir a porta. ela é muito organizada e fica visivelmente chateada com a desordem da escrivaninha. vira e mexe muda as coisas um pouco do lugar pra ver se melhora, ou se eu me animo de fazer isso. por ela ser faxineira fico pensando que a mania de limpeza e ordem é efeito colateral da profissão, pode ser.
eu tenho um vício de sorrir. anos de recepcionista acabaram com minha espontaneidade nos encontros, é claro que fiquei mais simpática, meu oi vem com sorrisão queira eu ou não. recepcionista professora atriz mulher professora atriz mulher sorriso sorriso sorriso sorrisão.
a cleide me contou que no sábado ela arruma o guarda-roupa todo e vai tacando água pela casa, limpando tudo. e a mãe fala - ih lá vem ela! e ela bota as mulheres da casa pra ajudar a limpar o quarto dos menores. ela não consegue ver nada sujo e bagunçado, já me dizia a sua irmã rose - ela é muito boa, tem até mania de limpeza. no fim do dia toma uma cervejinha lascada pra relaxar. hoje ela também me contou que quer tatuar outro unicórnio nas costas, que no meio tem os nomes dos pais e da filha e que o estúdio anda lotado esse mês.
o sorriso. às vezes quando abro a porta pra cleide de manhã eu não sorrio. por causa do horário, porque eu tava dormindo, porque ela acordou às 5 da manhã, porque o ônibus é lotado, porque teve enchente, porque não tem razão pra sorrir naquela hora. meu encontro com a cleide é espontâneo (e relâmpago porque eu volto pra cama). sou espontânea com a cleide de manhã quando ela chega. mas essa parte é muito importante: quando abro a porta não sou recepcionista atriz professora e mulher com a cleide.
mais tarde quando ela topa tomar um café comigo eu já estou sorrindo de novo e provavelmente sendo espontânea. às vezes fica difícil saber. ela me conta uns casos, me fala que a rose tá boa, eu conto umas coisas. a gente sorri junto pelo hábito, ou pela graça mesmo das nossas histórias. logo ela já vai levantando e retomando o foco na faxina e eu fico pensando que ela deve ter começado a faxinar muito novinha.
o mistério. a cleide sempre coloca o lençol de cima virado de cabeça pra baixo. ainda não quis perguntar qual a lógica dela porque gosto de pensar nesse mistério. não é falta de atenção, nem dúvida, ela tem certeza que o certo é pra baixo. eu tenho medo de perguntar porquê e acabar com esse suspense. com certeza ela tem uma razão pra colocar do lado errado. eu, apesar de querer muito saber qual é, não quero cortar esse fio de dúvida que me liga a ela desde que ela se vai até eu arrumar o lençol do meu jeito.
eu tenho um vício de sorrir. anos de recepcionista acabaram com minha espontaneidade nos encontros, é claro que fiquei mais simpática, meu oi vem com sorrisão queira eu ou não. recepcionista professora atriz mulher professora atriz mulher sorriso sorriso sorriso sorrisão.
a cleide me contou que no sábado ela arruma o guarda-roupa todo e vai tacando água pela casa, limpando tudo. e a mãe fala - ih lá vem ela! e ela bota as mulheres da casa pra ajudar a limpar o quarto dos menores. ela não consegue ver nada sujo e bagunçado, já me dizia a sua irmã rose - ela é muito boa, tem até mania de limpeza. no fim do dia toma uma cervejinha lascada pra relaxar. hoje ela também me contou que quer tatuar outro unicórnio nas costas, que no meio tem os nomes dos pais e da filha e que o estúdio anda lotado esse mês.
o sorriso. às vezes quando abro a porta pra cleide de manhã eu não sorrio. por causa do horário, porque eu tava dormindo, porque ela acordou às 5 da manhã, porque o ônibus é lotado, porque teve enchente, porque não tem razão pra sorrir naquela hora. meu encontro com a cleide é espontâneo (e relâmpago porque eu volto pra cama). sou espontânea com a cleide de manhã quando ela chega. mas essa parte é muito importante: quando abro a porta não sou recepcionista atriz professora e mulher com a cleide.
mais tarde quando ela topa tomar um café comigo eu já estou sorrindo de novo e provavelmente sendo espontânea. às vezes fica difícil saber. ela me conta uns casos, me fala que a rose tá boa, eu conto umas coisas. a gente sorri junto pelo hábito, ou pela graça mesmo das nossas histórias. logo ela já vai levantando e retomando o foco na faxina e eu fico pensando que ela deve ter começado a faxinar muito novinha.
o mistério. a cleide sempre coloca o lençol de cima virado de cabeça pra baixo. ainda não quis perguntar qual a lógica dela porque gosto de pensar nesse mistério. não é falta de atenção, nem dúvida, ela tem certeza que o certo é pra baixo. eu tenho medo de perguntar porquê e acabar com esse suspense. com certeza ela tem uma razão pra colocar do lado errado. eu, apesar de querer muito saber qual é, não quero cortar esse fio de dúvida que me liga a ela desde que ela se vai até eu arrumar o lençol do meu jeito.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
triste trama, tudo tanto
senta aqui conta pra mim que tristeza é essa
vou te tocar nonde dói, mas não se habitua à tristeza meu bem
não acostuma não que não te quero tristonha
bota essa tristezinha aqui no colo que dou uns tapas nela
dou uns tapas em você também pra ficar brava e esquecer de se entristecer
tudo dói e não presta nada doer, dor passa e tempo também passa
tempo não volta sabe?
bobagem bobagem tempo de tristeza e alegria é infinito
mas entende o que te digo?
tempo de alegria também é infinito
ô se é, bota isso na sua cabecinha
alegria não é boba não
pega minha mão palma quente
pode pôr no peito
põe palma com palma
bochecha com bochecha
coxa com coxa
sexo com sexo
pega minha mão e leva à boca, beija
me devolve quente
respira aqui no meu pescoço
isso te alegra?
se eu te entristeço te deixo, eu também triste
tateio transo tramo chamo, mas deixo
choro, mas deixo
demoro, mas deixo
ó, enquanto isso deita aqui no meu peito
na barriga na bunda onde quer que te divirta
deixa seus dedos escorregarem em espiral
recorta uns pedaços meus
trama qualquer coisa
trinca um hematoma
vou te tocar nonde dói, mas não se habitua à tristeza meu bem
não acostuma não que não te quero tristonha
bota essa tristezinha aqui no colo que dou uns tapas nela
dou uns tapas em você também pra ficar brava e esquecer de se entristecer
tudo dói e não presta nada doer, dor passa e tempo também passa
tempo não volta sabe?
bobagem bobagem tempo de tristeza e alegria é infinito
mas entende o que te digo?
tempo de alegria também é infinito
ô se é, bota isso na sua cabecinha
alegria não é boba não
pega minha mão palma quente
pode pôr no peito
põe palma com palma
bochecha com bochecha
coxa com coxa
sexo com sexo
pega minha mão e leva à boca, beija
me devolve quente
respira aqui no meu pescoço
isso te alegra?
se eu te entristeço te deixo, eu também triste
tateio transo tramo chamo, mas deixo
choro, mas deixo
demoro, mas deixo
ó, enquanto isso deita aqui no meu peito
na barriga na bunda onde quer que te divirta
deixa seus dedos escorregarem em espiral
recorta uns pedaços meus
trama qualquer coisa
trinca um hematoma
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
perdidos
registre-se neste documento cabeça perdida nos últimos dias. do sexto ao décimo quarto dia do mês corrente (data aproximada) a escrevente percebeu que havia algo estranho, uma ausência. ao final do referido período, notou que faltava-lhe a cabeça. após breve investigação, foi constatada a efetiva ausência desta que é uma das partes mais importantes do corpo humano. mesmo prejudicada pela falta de tão importante órgão, a escrevente procurou saber onde encontrava-se a cabeça perdida. lembrou-se que seus últimos pensamentos tinham se fixado em determinada e conhecida pessoa. seguindo as pistas dadas pelos seus pensamentos, estranhamente registrados em outras partes do corpo, pôde concluir que sua cabeça estava de fato na outra pessoa. tendo sido conhecido o destino da cabeça da escrevente, a mesma achou por bem não contrariar a vontade de cabeça tão pouco dada a deslocamentos. assim sendo, a vítima opta pelo empréstimo irrestrito de seus pensamentos a tal pessoa, abrindo mão de quaisquer punições pelo sequestro involuntário de sua cabeça. a escrevente declara concordar plenamente com o rapto, ressalvando-se situação em que haja falta de interesse por parte da outra pessoa. em caso de desinteresse, a cabeça deverá ser devolvida com ou sem danos.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
convicta
arranco os pelos e isso dói, mas não me preocupa não.
preocupo-me com os porquês, como ter uma estante cheia e nunca pegar um livro.
ou quase nunca. corro os olhos pelas coisas que estão em desuso.
vejo os cinco cadernos cheios de folhas brancas e amareladas. pilhas de canetas e ideias bobas.
me apego ao que é mais concreto: os pelos. não os pelos em si, mas arrancá-los. no fim, são tão inúteis quanto os cadernos vazios.
desligar a internet e enrolar um cigarro, fumar esse cigarro e então abrir um livro.
ainda assim, as coisas em si não interessam mais. lavar a roupa ou escrever um poema, qual a diferença?
se faço tudo com um tanto suficiente de desatenção.
ando determinada a valorizar as mais pequenas coisas, quanto menor mais importante. afinal, é nas pequenas coisas... é nos pequenos frascos...
deixá-los ou arrancá-los importa menos do que a convicção com que o faço.
ontem elogiaram meu boquete e eu não me esforcei.
assim sendo, resolvo me tornar uma extirpadora de maus hábitos, também conhecidos como bons. aqueles que nos levam a ser sensatos.
abro mão de uma campanha e me engajo em outra com a mesma emoção com que ensinava noutro dia.
não sei bem o que é agora. se ler, escrever, ou só sair da internet. cortar as unhas, ser feliz, ou tomar uma cerveja.
tenho plena convicção disso.
preocupo-me com os porquês, como ter uma estante cheia e nunca pegar um livro.
ou quase nunca. corro os olhos pelas coisas que estão em desuso.
vejo os cinco cadernos cheios de folhas brancas e amareladas. pilhas de canetas e ideias bobas.
me apego ao que é mais concreto: os pelos. não os pelos em si, mas arrancá-los. no fim, são tão inúteis quanto os cadernos vazios.
desligar a internet e enrolar um cigarro, fumar esse cigarro e então abrir um livro.
ainda assim, as coisas em si não interessam mais. lavar a roupa ou escrever um poema, qual a diferença?
se faço tudo com um tanto suficiente de desatenção.
ando determinada a valorizar as mais pequenas coisas, quanto menor mais importante. afinal, é nas pequenas coisas... é nos pequenos frascos...
deixá-los ou arrancá-los importa menos do que a convicção com que o faço.
ontem elogiaram meu boquete e eu não me esforcei.
assim sendo, resolvo me tornar uma extirpadora de maus hábitos, também conhecidos como bons. aqueles que nos levam a ser sensatos.
abro mão de uma campanha e me engajo em outra com a mesma emoção com que ensinava noutro dia.
não sei bem o que é agora. se ler, escrever, ou só sair da internet. cortar as unhas, ser feliz, ou tomar uma cerveja.
tenho plena convicção disso.
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