quinta-feira, 12 de setembro de 2013

convicta

arranco os pelos e isso dói, mas não me preocupa não.
preocupo-me com os porquês, como ter uma estante cheia e nunca pegar um livro.
ou quase nunca. corro os olhos pelas coisas que estão em desuso.
vejo os cinco cadernos cheios de folhas brancas e amareladas. pilhas de canetas e ideias bobas.
me apego ao que é mais concreto: os pelos. não os pelos em si, mas arrancá-los. no fim, são tão inúteis quanto os cadernos vazios.
desligar a internet e enrolar um cigarro, fumar esse cigarro e então abrir um livro.
ainda assim, as coisas em si não interessam mais. lavar a roupa ou escrever um poema, qual a diferença?
se faço tudo com um tanto suficiente de desatenção.
ando determinada a valorizar as mais pequenas coisas, quanto menor mais importante. afinal, é nas pequenas coisas... é nos pequenos frascos...
deixá-los ou arrancá-los importa menos do que a convicção com que o faço.
ontem elogiaram meu boquete e eu não me esforcei.
assim sendo, resolvo me tornar uma extirpadora de maus hábitos, também conhecidos como bons. aqueles que nos levam a ser sensatos.
abro mão de uma campanha e me engajo em outra com a mesma emoção com que ensinava noutro dia.
não sei bem o que é agora. se ler, escrever, ou só sair da internet. cortar as unhas, ser feliz, ou tomar uma cerveja.
tenho plena convicção disso.

domingo, 1 de setembro de 2013

microconto

eram três cadelas salsicha: bianca, medéia e shiva (a destruidora)

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

assunto: desencontro

o que você acha da gente se desencontrar qualquer dia desses? não precisa ser nada como um café, ou um drinque, que me parecem muito comprometedores. a gente podia se desencontrar na rua, ou no trabalho, sem encanto. se conseguíssemos nos desencontrar seria tudo bem simples, ninguém esperaria nada e alguma coisa seria possível. topa?

ps: nossos últimos desencontros foram promissores

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

como ser feliz num apartamento em perdizes?

a hora que eu acordei ouvi um silêncio chato que se tornava mais evidente com os sons de descarga do apartamento de cima. logo ia começar o toc-toc apressado da vizinha que, aparentemente, estava sempre atrasada pro trabalho. o sol batendo na janela de alumínio que eu detesto. abri a janela e o sol bateu na minha cara. do lado de fora, os carros começam a sair das garagens subterrâneas. me lembram formigas saindo do buraco pra buscar folhas e farelos. os barulhos da manhã. som de motores. interruptores. bocejo de criança. chaves girando nas fechaduras. xícaras. acorda amor, tá o maior sol. não sei como você consegue dormir assim. ele bufa e se enrola mais no edredom. sempre fico em dúvida se tento de novo, sempre resolvo que não. o melhor despertador era o café. um espreguiçar comprido de boca aberta.
vestir os chinelos e começar o dia. ficar feliz com o sol.

terça-feira, 23 de julho de 2013

- me vê um suco de melancolia
- suco de melancia?
- pode ser

terça-feira, 16 de julho de 2013

os pés

onde colocar meus pés
nunca soube onde colocá-los
dedos pulando além, as unhas querendo cravar o chão
dedos de papagaio pés de macaco vivos demais
sujos de terra vermelha sob os tapetes brancos, dentro de sapatos finos a joanete
a poeira por fora e por dentro da sandália
e eu pelada desconcertada em cima dos pés bobos em saltos altos
saltitante e falante pelos tornozelos
- esconder guardar os pés curiosos, fazer as unhas de novo

pisar o chão de asfalto quente, queimar as solas
molhar os pés na sarjeta
enfiar os dedos na lama e esfregar na areia afundando
andar correr escondido
usar os tênis
fazer as unhas de novo
guardar os pés

sábado, 6 de julho de 2013

feliz aniversário, dani

hoje acordo com o interfone - bom dia flávia, chegou um sedex pra você e um pro daniel, vou aí entregar. abro a porta pra receber os sedexs, o jornal e - chegou a revista do daniel também.
esse "chegou a revista do daniel também"... tomei café e li o jornal do daniel, tirei fora os cadernos de imóveis, automóveis, páginas e mais páginas de pura publicidade, dobrei o jornal e guardei pra quando ele voltar.
fui almoçar - tá sozinha hoje? tá todo mundo passeando? respondi que não sabia de todos.
ontem a noite - o daniel foi pra onde? vai passar o niver lá? porque você não foi pro rio também? não sei porque não fui... não somos colados e ele deve querer ficar um pouco longe de mim.
ontem a noite mais cedo - o daniel foi que horas? quando ele volta?
ontem a tarde - gatinha, me passa o cel do dani?
ontem a tarde, sms do daniel no caminho - capim do vale vara de goiabeira na beira do rio, paro para me benzer. mãe d'água sai um pouquinho desse seu leito ninho que eu tenho um carinho para lhe fazer...

as revistas e os jornais do daniel, as plantas, os horários, os trabalhos, os móveis, as roupas, os livros, os amigos, as listas, os links, os postits, os filmes, as músicas, as contas, as compras, as evasivas, as transas, as risadas, os olhos espremidos, os pigarros, os dentes, as nádegas, as palavras. o que é do daniel? um universo de coisas semi(e)concretas, coladas (mas não fixadas) numa certa organização. um mural semi público de manias, obsessões, belezas, tristezas, delícias e ideias. um principiante agitar de bandeira. uma concha. uns suspiros incertos. umas onomatopéias.
me pergunto se perguntam tanto de mim pra ele. me pergunto se a influênciação dele é visível pros outros. me pergunto se é visível pra ele.
me sinto sortuda, porque apesar de não transarmos um com o outro, ou justamente por isso, temos uma bela história de amor. eu tenho, pelo menos.