segunda-feira, 24 de março de 2008

auto-retrato

Ela olha meu auto-retrato na parede e acha que é muito triste.
Não sabe que se trata de auto-retrato, eu não acho triste.
Respondo que é meio triste e meio perplexo.
Ela discorda: é triste.
Digo que tristeza não é uma coisa ruim, depende. E além do mais temos as borboletas, logo ali na parede ao lado. Nem tudo é tristeza, nem perplexidade nessa casa. Temos as borboletas e as samambaias.
Ela parece achar pouco: é muito triste.

terça-feira, 18 de março de 2008

Pulgas

Uma das pulgas que anda picando atrás da minha orelha,é a pulga das câmeras de segurança.
Alguém mais notou que o número de reportagens em telejornais utilizando câmeras de segurança está crescendo?
Em uma semana devo ter visto umas 3 matérias sobre confusões em posto de gasolina. Os postos de gasolina estão ficando mais importantes, ou a importância reside (na curiosidade) de registrar imagens de pessoas que não têm consciência de que estão sendo filmadas?
Sim, todos sabemos que as câmeras de segurança estão em quase todos os lugares, mas elas estão lá em cima, são pequenininhas e justamente pelo fato de estarem em todos os locais, já foram incorporadas como parte da vida muderna. Em outras palavras perdemos a consciência da sua presença.
Não é novidade pra ninguém o interesse que temos em fuxicar a vida dos outros, temos aí vários exemplos de reality shows e similares para provar. A meu ver, participar de um reality show é uma atividade extra-cotidiana e depende da disposição do participante, ele tem consciência de onde está se metendo e se mete justamente por necessidade de se expor, aparecer, ficar famoso, etc. E não faltam intelectuais para escrachar a existência dos tais programas, justamente por isso e outros fatores sobre os quais não vou entrar em detalhes.
O principal problema da câmera de segurança é justamente a perda da consciência da sua presença, o (in)felizardo que trabalhar diante do monitor de uma dessas câmeras deve se esbaldar com os recortes de vida real que vê por ali, gente coçando a bunda, ajeitando o sutiã, se amassando no elevador, discutindo, e por aí vai...
E a câmera serve pra quê? Acho que uma função positiva é justamente registrar qualquer crime que ocorra dentro do seu foco de registro, num assalto por exemplo, as imagens ficam registradas e podemos sonhar com a possível captura não somente da imagem do ladrão, mas também do próprio ladrão. Dentro de um processo jurídico, certamente as imagens podem ser muito úteis, mas será que realmente são?
Voltando à questão da exibição dessas imagens em rede nacional... Qual a relevância? Uma notícia sem imagem não tem importância ou não tem impacto? Se as imagens fossem captadas por um repórter, de câmera em punho, onde todos os envolvidos estivessem conscientes da sua presença, essas imagens teriam o mesmo caráter? Ou os envolvidos se sentiriam inibidos?
Quando crimes como espancamentos, atropelamentos, assassinatos são exibidos através de imagens captadas pelas câmeras de segurança, temos a impressão que é realmente importante exibir as imagens e chamar a atenção sobre esses crimes, além do prazer de fuxicar, é claro... Mas a partir do momento que brigas em condomínios nos Jardins, entre estressados membros da nossa má educada classe média, se tornam notícia, não dá mais pra ignorar.
Que porra me interessa essa briga? Qual a relevância jornalistica? Será que não tinha nenhuma notícia mais séria pra ocupar o lugar dessa? O caminho do telejornal é se tornar mais um reality show?

O que eu quero dizer com tudo isso é: não devemos aceitar tudo que existe por aí como se fosse natural, ético ou digno. As câmeras de segurança têm uma função, mas isso não significa que estejam cumprindo essa função, e mesmo essa função deve ser questionada de vez em quando. O mesmo vale para o jornalismo e a televisão, aliás vale pra qualquer assunto, ou não vale?

quarta-feira, 12 de março de 2008

Dúvidas

- O teatro provoca mudanças? Que tipo de teatro? Que tipo de mudanças?
- A lei da reciprocidade é justa? Agora devemos humilhar os espanhóis?
- É vergonhoso assistir big brother? Isso importa?
- É possível não pensar em dinheiro?
- Vale a pena trabalhar por comida ou compensa fazer um regime?
- Tostines vende mais porque é fresquinho, ou...?
- É melhor deixar o carro parado em casa ou no trânsito?
- Quem atirou em Juvenal Antena?
- Quem matou Odete Roitman? Opa, essa eu já sei.
- Porque os homens fazem questão de dar sua opinião sobre a aparência das mulheres que encontram na rua?
- É melhor ter certezas ou dúvidas?
Sei lá, mas sei de uma coisa, as certezas acabam, as dúvidas jamais!

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

domingo

Estava exausta, deitou de conchinha, meio tímida. Sexo é uma coisa angustiante, boa, mas cheia de uma coisa meio indefinida, uma certa insatisfação. Pelo menos pra ela, que tem 17 anos. Não que não tivesse gozado, tinha sim, mas depois que acabava sempre achava que tinha perdido alguma coisa.
Era a primeira vez que se apaixonava por um homem inteiro, incluindo o pinto. Depois que alguns anos se passassem, não saberia dizer porque se apaixonara por aquele homem, era o primeiro amor de pica. Ele não tinha nada a ver com ela, essa era a opinião geral, mas ela amava aquele como se fosse o único, o último. Só de pensar que poderiam se separar um dia, doía.
Aliás, doía mesmo, tudo doía e excitava nesse primeiro romance. Ficava tentando encontrar uma maneira de diminuir a incerteza daquilo tudo. Ele era dela hoje, mas dificilmente seria pra sempre, sabia disso. Ela arquitetava grandes planos pra vida dos dois, até dividia alguns com ele, parecia que sua vida estava atrelada a dele pra sempre. Não sabia nada do futuro, exceto que ele era parte dele.
Ele não sabia, mas ela estava arrumando um jeito de morarem juntos, claro que dependia de uma série de fatores, alguns fora do seu controle, mas a idéia era boa. Claro que as famílias não iam gostar e iam colocar empecilhos, mas se ele aceitasse... Ia dar um jeito de fazer faculdade em outra cidade e ele poderia ir junto com ela. Só iria se ele fosse. Tinha certeza que ele ia topar, mas ainda não tinha tido coragem de perguntar.
O dia que eles terminaram era domingo, e chovia. Ela não gostava mais dele, não tinha a mínima vontade de morar com ele, nem acreditava que tinha pensado nisso um dia. Ele não tinha nada a ver com ela, era tão chato. Ela não via a hora de terminar aquela história e seguir em frente. Ele chorava, sempre chorava quando queria alguma coisa. Que chatice, sempre igual, ele faz aquele circo e ela não tem coragem. Agora é diferente.
Depois do rompimento ia haver aquele período de choradeira, mas estava decidida e não ia voltar atrás. Ele foi embora no ônibus, ela ficou acenando e sentiu um alívio enorme. Ele era o último resto da adolescência que estava indo embora. Tchau.
Pouco tempo depois, ela também ia pegar o ônibus num domingo e deixar a cidade. No dia que partiu estava diferente, era ela mesma. Olhava a estrada e pensava, eu não vivo mais aqui, quando voltar vai ser a passeio. Sabia que não ia sentir saudades, ela era assim. Abandonou a velha vida que não lhe servia mais.

Num domingo chuvoso, o vizinho tocava sax, eu não o conhecia, só de ouvido. Depois de uma hora ouvindo o lamentoso saxofone e o barulho da chuva, estava irritada. Depois de duas horas pensei em sair um pouco de casa, mas a chuva me desanimou. Na terceira, quarta e quinta horas tentava sentir prazer com o som ambiente. Na sexta ou sétima hora, não sei ao certo, ouvi junto com a música, esta história de uma menina qualquer, igual a tantas outras, que tinha uma história de domingo pra contar. Sentei e escrevi.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Trauma

Superando traumas:

- aniversário
Depois do meu aniversário frustrado de 10 anos, resolvi tentar de novo, reuni os amigos em casa pra comemorar os 28 anos, e funcionou!
- faculdade
Após duas tentativas, farei uma terceira. Passei de novo no vestiba e dessa vez eu termino o curso.
- pé
Passei esmalte pink nas unhas do pé. Pé feio, e daí?

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

31 de janeiro

Hoje é meu aniversário, 28 anos. Passa rápido não?

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

artesanato

Hoje fiz meu filho, meu feto.
Com agulha e linha o cerzi, misturado com o sangue das pontas dos dedos feridos na agulha.
Como minha mãe me ensinou, como a mãe dela a ensinou.
Fiz meu filho com minhas mãos e ele é meu.
Hoje fiz meu filho e morri, porque de hoje em diante não há vida senão a dele.