a hora que eu acordei ouvi um silêncio chato que se tornava mais evidente com os sons de descarga do apartamento de cima. logo ia começar o toc-toc apressado da vizinha que, aparentemente, estava sempre atrasada pro trabalho. o sol batendo na janela de alumínio que eu detesto. abri a janela e o sol bateu na minha cara. do lado de fora, os carros começam a sair das garagens subterrâneas. me lembram formigas saindo do buraco pra buscar folhas e farelos. os barulhos da manhã. som de motores. interruptores. bocejo de criança. chaves girando nas fechaduras. xícaras. acorda amor, tá o maior sol. não sei como você consegue dormir assim. ele bufa e se enrola mais no edredom. sempre fico em dúvida se tento de novo, sempre resolvo que não. o melhor despertador era o café. um espreguiçar comprido de boca aberta.
vestir os chinelos e começar o dia. ficar feliz com o sol.
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
terça-feira, 16 de julho de 2013
os pés
onde colocar meus pés
nunca soube onde colocá-los
dedos pulando além, as unhas querendo cravar o chão
dedos de papagaio pés de macaco vivos demais
sujos de terra vermelha sob os tapetes brancos, dentro de sapatos finos a joanete
a poeira por fora e por dentro da sandália
e eu pelada desconcertada em cima dos pés bobos em saltos altos
saltitante e falante pelos tornozelos
- esconder guardar os pés curiosos, fazer as unhas de novo
pisar o chão de asfalto quente, queimar as solas
molhar os pés na sarjeta
enfiar os dedos na lama e esfregar na areia afundando
andar correr escondido
usar os tênis
fazer as unhas de novo
guardar os pés
nunca soube onde colocá-los
dedos pulando além, as unhas querendo cravar o chão
dedos de papagaio pés de macaco vivos demais
sujos de terra vermelha sob os tapetes brancos, dentro de sapatos finos a joanete
a poeira por fora e por dentro da sandália
e eu pelada desconcertada em cima dos pés bobos em saltos altos
saltitante e falante pelos tornozelos
- esconder guardar os pés curiosos, fazer as unhas de novo
pisar o chão de asfalto quente, queimar as solas
molhar os pés na sarjeta
enfiar os dedos na lama e esfregar na areia afundando
andar correr escondido
usar os tênis
fazer as unhas de novo
guardar os pés
sábado, 6 de julho de 2013
feliz aniversário, dani
hoje acordo com o interfone - bom dia flávia, chegou um sedex pra você e um pro daniel, vou aí entregar. abro a porta pra receber os sedexs, o jornal e - chegou a revista do daniel também.
esse "chegou a revista do daniel também"... tomei café e li o jornal do daniel, tirei fora os cadernos de imóveis, automóveis, páginas e mais páginas de pura publicidade, dobrei o jornal e guardei pra quando ele voltar.
fui almoçar - tá sozinha hoje? tá todo mundo passeando? respondi que não sabia de todos.
ontem a noite - o daniel foi pra onde? vai passar o niver lá? porque você não foi pro rio também? não sei porque não fui... não somos colados e ele deve querer ficar um pouco longe de mim.
ontem a noite mais cedo - o daniel foi que horas? quando ele volta?
ontem a tarde - gatinha, me passa o cel do dani?
ontem a tarde, sms do daniel no caminho - capim do vale vara de goiabeira na beira do rio, paro para me benzer. mãe d'água sai um pouquinho desse seu leito ninho que eu tenho um carinho para lhe fazer...
as revistas e os jornais do daniel, as plantas, os horários, os trabalhos, os móveis, as roupas, os livros, os amigos, as listas, os links, os postits, os filmes, as músicas, as contas, as compras, as evasivas, as transas, as risadas, os olhos espremidos, os pigarros, os dentes, as nádegas, as palavras. o que é do daniel? um universo de coisas semi(e)concretas, coladas (mas não fixadas) numa certa organização. um mural semi público de manias, obsessões, belezas,tristezas, delícias e ideias. um principiante agitar de bandeira. uma concha. uns suspiros incertos. umas onomatopéias.
me pergunto se perguntam tanto de mim pra ele. me pergunto se a influênciação dele é visível pros outros. me pergunto se é visível pra ele.
me sinto sortuda, porque apesar de não transarmos um com o outro, ou justamente por isso, temos uma bela história de amor. eu tenho, pelo menos.
esse "chegou a revista do daniel também"... tomei café e li o jornal do daniel, tirei fora os cadernos de imóveis, automóveis, páginas e mais páginas de pura publicidade, dobrei o jornal e guardei pra quando ele voltar.
fui almoçar - tá sozinha hoje? tá todo mundo passeando? respondi que não sabia de todos.
ontem a noite - o daniel foi pra onde? vai passar o niver lá? porque você não foi pro rio também? não sei porque não fui... não somos colados e ele deve querer ficar um pouco longe de mim.
ontem a noite mais cedo - o daniel foi que horas? quando ele volta?
ontem a tarde - gatinha, me passa o cel do dani?
ontem a tarde, sms do daniel no caminho - capim do vale vara de goiabeira na beira do rio, paro para me benzer. mãe d'água sai um pouquinho desse seu leito ninho que eu tenho um carinho para lhe fazer...
as revistas e os jornais do daniel, as plantas, os horários, os trabalhos, os móveis, as roupas, os livros, os amigos, as listas, os links, os postits, os filmes, as músicas, as contas, as compras, as evasivas, as transas, as risadas, os olhos espremidos, os pigarros, os dentes, as nádegas, as palavras. o que é do daniel? um universo de coisas semi(e)concretas, coladas (mas não fixadas) numa certa organização. um mural semi público de manias, obsessões, belezas,
me pergunto se perguntam tanto de mim pra ele. me pergunto se a influênciação dele é visível pros outros. me pergunto se é visível pra ele.
me sinto sortuda, porque apesar de não transarmos um com o outro, ou justamente por isso, temos uma bela história de amor. eu tenho, pelo menos.
segunda-feira, 3 de junho de 2013
trato
eu não gostaria de devorar você. não desejo mastigar o que existir como um pitbull. não espero que me faça voar, mesmo que as asas teimem em bater. não vou te gravar na pele feito tatuagem, nem carregar seu peso em minhas costas. não seja o meu ar, nem minha comida, não seja água pra minha boca sedenta. não quero me fundir com você, nem caminhar de mãos dadas como fazem por aí. não quero almas geminadas.
não quero o amontoado de cacarecos que eu costumava carregar e chamar de sacrifício. nem vir a chamar o sacrifício de amor. sequer quero entender o que seja amor.
o que eu gostaria é de te conhecer.
não quero o amontoado de cacarecos que eu costumava carregar e chamar de sacrifício. nem vir a chamar o sacrifício de amor. sequer quero entender o que seja amor.
o que eu gostaria é de te conhecer.
terça-feira, 21 de maio de 2013
ira uterina
numa regra atrapalhada
noutra distraída
numa hora depressiva
noutra raivosa
num dia gulosa
no outro dolorida
às vezes desprevenida
outras despirocada
o de sempre é o sangue, o esperado
o desejado e odiado
sangue, sangue!
zerando os placares pra iniciar uma nova partida
noutra distraída
numa hora depressiva
noutra raivosa
num dia gulosa
no outro dolorida
às vezes desprevenida
outras despirocada
o de sempre é o sangue, o esperado
o desejado e odiado
sangue, sangue!
zerando os placares pra iniciar uma nova partida
terça-feira, 7 de maio de 2013
fotografia e dor
teve uma vez que fiz um retrato a partir de uma fotografia. a foto era referência e presença do retratado, que estava viajando. não era uma fotografia que eu gostasse, mas era a preferida dele. passei horas olhando pra imagem capturada e tentando não apenas reproduzi-la, mas colocar ali o que eu via e era tão diferente. eu amava, achava que um clique era pouco pra contar tudo que eu conhecia de experiência vivida. o meu retrato era um presente pra ser entregue na volta.
não foi fácil trabalhar na presença dos olhos penetrantes e duros da fotografia, expressavam um desprezo imenso pelo que eu fazia. a luz era quente, bonita. o enquadramento franco. era uma bela foto. o problema não era a foto, eram os olhos frios que saltavam dela e os lábios cerrados que pareciam descaracterizar a pessoa que eu conhecia. a foto era anterior ao nosso encontro. eu queria, apesar de todas as dificuldades técnicas, superar a fotografia.
passei o dia desenhando, pintando, sofrendo. no fim do dia, o trabalho mais ou menos definido, faltava só um acabamento que ficaria pro dia seguinte. não lembro direito, mas parece que estava satisfeita com as diferenças entre a fotografia e a pintura. a incapacidade técnica parecia superada pelos sentimentos que envolviam a minha ação.
semi-satisfeita fui pra cama, a cabeça cheia de várias camadas de imagens que eu tinha tentado desvendar o dia todo. revirando sem sono, agitada pela novidade, mandei um sms de boa noite pro retratado. não contei sobre o retrato, que seria surpresa. recebi uma resposta logo depois, na qual meu amor falava da saudade, do tanto que amava... outra pessoa. ele confundiu meu sms com o de outra mulher e trocou as respostas.
várias ligações, minutos e reais depois, eu tinha esclarecido tudo entre nós três. ela também ficou sabendo qual era a real situação e quem era eu. eu tinha prometido pra ele (com um certo alívio) que o esperaria voltar antes de fazer as malas, picar a mula, ou chutar o pau da barraca. também ouvi juras de amor eterno que sei que, nesse momento, ela não ouviu. de certa forma, na medida do possível, acalmei o ciúme e a raiva durante o processo de torturar a menina (que era totalmente inocente na história).
com o problema da posse resolvido e esclarecido, sobrou o retrato.
o fdp do retrato. não resisti e fui olhar pra ele, pra ver o que tava dando errado na minha história. tava ficando bonito. eu tinha passado o dia todo em cima dele e não era tão ruim. a foto original tava por perto e eu olhava os dois, comparando.
percebi que não era a qualidade do meu trabalho diante da imagem fotográfica que eu comparava, mas a realidade das duas coisas. não havia nenhuma dúvida de que a foto tinha conseguido capturar uma essência que eu não pude. tudo que eu via com o olho da emoção, era excluído da fotografia. era realmente uma dessas fotos incríveis que captam a profundeza da pessoa. eu que via errado e meu retrato deixou isso bem claro.
diante da exacerbação das minhas ilusões em formas e cores, confirmada pelo uso mal calculado da tecnologia celular, tive um momento de ira. um ódio imenso da fotografia e do que eu tinha feito a partir dela. foi insuportável ver a mim mesma no retrato pintado. num acesso de dorian gray, esfaqueei a tela úmida. no livro do oscar wilde é o próprio retratado que, não suportando mais a representação da sua beleza e juventude, mata a obra e a si mesmo. diferente do pintor do romance, eu matei o que era meu no retrato, antes que qualquer pessoa o tivesse visto.
de certa forma, o assassinato daquelas ilusões trouxe a morte de outras tantas que nem ali estavam. levou um bom tempo até tudo que nos ligava morresse de vez, mas morreu.
essa história nunca foi contada, o que é raro pra mim. porque lembrei dela agora? não sei.
acho que era alguma coisa entre o que uma fotografia pode revelar e o que a emoção pode confundir. meu desagrado com a foto era porque ela insistia em desfazer o que eu imaginava e construía, mas isso eu só tive certeza ao rasgar o retrato que eu fiz. a foto era belíssima, justamente por denunciar a força destruidora daquela beleza num clique. eu nunca seria capaz disso.
o retrato que eu pintei não dizia respeito ao modelo, era sobre mim e só. era uma tentativa de escravizar o retratado na minha moldura.
a título de conclusão: 1) representar o que a gente ama pode ser gostoso, mas dificilmente vira obra de arte; 2) a beleza da obra de arte dói; 3) um sms pode ser tão revelador quanto uma fotografia.
não foi fácil trabalhar na presença dos olhos penetrantes e duros da fotografia, expressavam um desprezo imenso pelo que eu fazia. a luz era quente, bonita. o enquadramento franco. era uma bela foto. o problema não era a foto, eram os olhos frios que saltavam dela e os lábios cerrados que pareciam descaracterizar a pessoa que eu conhecia. a foto era anterior ao nosso encontro. eu queria, apesar de todas as dificuldades técnicas, superar a fotografia.
passei o dia desenhando, pintando, sofrendo. no fim do dia, o trabalho mais ou menos definido, faltava só um acabamento que ficaria pro dia seguinte. não lembro direito, mas parece que estava satisfeita com as diferenças entre a fotografia e a pintura. a incapacidade técnica parecia superada pelos sentimentos que envolviam a minha ação.
semi-satisfeita fui pra cama, a cabeça cheia de várias camadas de imagens que eu tinha tentado desvendar o dia todo. revirando sem sono, agitada pela novidade, mandei um sms de boa noite pro retratado. não contei sobre o retrato, que seria surpresa. recebi uma resposta logo depois, na qual meu amor falava da saudade, do tanto que amava... outra pessoa. ele confundiu meu sms com o de outra mulher e trocou as respostas.
várias ligações, minutos e reais depois, eu tinha esclarecido tudo entre nós três. ela também ficou sabendo qual era a real situação e quem era eu. eu tinha prometido pra ele (com um certo alívio) que o esperaria voltar antes de fazer as malas, picar a mula, ou chutar o pau da barraca. também ouvi juras de amor eterno que sei que, nesse momento, ela não ouviu. de certa forma, na medida do possível, acalmei o ciúme e a raiva durante o processo de torturar a menina (que era totalmente inocente na história).
com o problema da posse resolvido e esclarecido, sobrou o retrato.
o fdp do retrato. não resisti e fui olhar pra ele, pra ver o que tava dando errado na minha história. tava ficando bonito. eu tinha passado o dia todo em cima dele e não era tão ruim. a foto original tava por perto e eu olhava os dois, comparando.
percebi que não era a qualidade do meu trabalho diante da imagem fotográfica que eu comparava, mas a realidade das duas coisas. não havia nenhuma dúvida de que a foto tinha conseguido capturar uma essência que eu não pude. tudo que eu via com o olho da emoção, era excluído da fotografia. era realmente uma dessas fotos incríveis que captam a profundeza da pessoa. eu que via errado e meu retrato deixou isso bem claro.
diante da exacerbação das minhas ilusões em formas e cores, confirmada pelo uso mal calculado da tecnologia celular, tive um momento de ira. um ódio imenso da fotografia e do que eu tinha feito a partir dela. foi insuportável ver a mim mesma no retrato pintado. num acesso de dorian gray, esfaqueei a tela úmida. no livro do oscar wilde é o próprio retratado que, não suportando mais a representação da sua beleza e juventude, mata a obra e a si mesmo. diferente do pintor do romance, eu matei o que era meu no retrato, antes que qualquer pessoa o tivesse visto.
de certa forma, o assassinato daquelas ilusões trouxe a morte de outras tantas que nem ali estavam. levou um bom tempo até tudo que nos ligava morresse de vez, mas morreu.
essa história nunca foi contada, o que é raro pra mim. porque lembrei dela agora? não sei.
acho que era alguma coisa entre o que uma fotografia pode revelar e o que a emoção pode confundir. meu desagrado com a foto era porque ela insistia em desfazer o que eu imaginava e construía, mas isso eu só tive certeza ao rasgar o retrato que eu fiz. a foto era belíssima, justamente por denunciar a força destruidora daquela beleza num clique. eu nunca seria capaz disso.
o retrato que eu pintei não dizia respeito ao modelo, era sobre mim e só. era uma tentativa de escravizar o retratado na minha moldura.
a título de conclusão: 1) representar o que a gente ama pode ser gostoso, mas dificilmente vira obra de arte; 2) a beleza da obra de arte dói; 3) um sms pode ser tão revelador quanto uma fotografia.
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