sexta-feira, 1 de junho de 2012

o menino dos caminhos

Para ele tudo tinha o seu caminho, tudo tinha trajetória. Tudo mesmo, assim, absoluto.
Desenhava a família: ela seguia um caminho, cada quadro era uma parada e o caminho não acabava. Desenhava a escola: era um caminho cheio de esquinas. Desenhava livre e sua liberdade se achava nos caminhos labirintos. Desenhava o futuro, a felicidade, um retrato, uma paisagem, o sonho, a vida. Cada desenho era um caminho, por que mudar?
Cada caminho era diferente dos outros, nunca teve a preguiça de fazer um desenho igual. Ainda que ele pisasse sempre o mesmo asfalto, sempre a mesma calçada, atravessasse a rua sempre no mesmo ponto, de casa pra escola e da escola pra casa.

terça-feira, 6 de março de 2012

falei das flores

não tem mais catarse

ou de repente não é nada disso, é só bobagem cotidiana
de gente que tem medo de beber demais e morrer cedo
gente que fuma e tem medo de câncer
e a catarse tá ali dissolvida no dia pesado, nos gritos
nas risadas exaltadas
no corre-corre do busão
nas emoções via sms

a boba bancando a arrogante que não transa catarse
que transa amizades
e pequenas putarias
de vez em quando uns abalos
umas perguntas engatadas em outras
sem fim
querendo nunca ser medíocre, mas sendo
umas piadas e discursos exaltados
muitas palavras e temas pra escapar do inevitável, o seu pequeno tamanho
esse negócio de grande e pequeno é besteira e tal
é um belo exercício retórico, rende algumas gracinhas
que uso depois nas festinhas

é tudo inha
porque tinha que pagar a conta de luz no dia certo, pelo menos uma vez
arrumar mais um trampinho
ligar pra mãe
aspirar o pó
bobagem

e se não fosse a bobagem do dia vivo
o suor fedido na calçada, correndo
do que eu ia falar?
vou indo inha
pra lá e pra cá atrás de uns sonhos
um teto e umas ideias
vou falar do quê,
das flores?

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

vende-se ou troca-se por equivalente

vou botar minha moral na banca hoje, vende-se a preço de oportunidade
moral novinha, mas não se enganem, não é dessas levianas que mudam a torto e a direito
apesar de nova, minha moral é de tradição
descolada no falar e representar
trabalhada nas novas mídias
salpicada de ideias revolucionárias do século passado
daquelas que não assustam mais os casais
e cheia de opinião
quem quer?
é só hoje

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

bolha x não

eu não vivo numa bolha
minha não-bolha é árida, esturricada
mas não é desértica, é cheia de figuras secas e espinhudas
muitas delas vivas, outras meio mortas
eu vivíssima querendo que as coisas me amem ou me odeiem

às vezes as coisas não querem sequer te odiar
na minha não-bolha as pessoas também me ignoram
nem percebem que estão lá
esse é meu maior pavor, os que ignoram a não-bolha e eu

eu toda agulha querendo explodir as bolhas alheias
por egoísmo mesmo, queria que todos sentissem e falassem
mas me ignoram e é a melhor maneira de preservarem seu mundo-bolha
dentro da não-bolha não se pode simplesmente esquecer

o meu lugar explodido
seco e habitado por seres e coisas
me proíbe de colorir o que é morto
me proíbe de ignorar o que é vivo

essas são as regras fundamentais da não-bolha
são duras e belas

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

o que não tem remédio

tudo morre, é certo. morre sim
se deixar quieto, morre. se agitar, morre
se espremer, morre bem rapidinho
se molhar demais, morre também

o jeito é deixar morrer, quando tá morrendo
ainda que os limites entre o ressuscitável e o morto suscitem dúvidas
uma vez morto, tá morrido
o jeito é deixar morrer em paz

chorar o morto e se jogar na cova
berrar e se agarrar ao corpo
cantar hinos e ladainhas
tudo pode e nada adianta

tudo morre, é certo. morre sim
se molhar demais, morre também

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

dia-a-dia

num dia tropeço
no outro levanto
num dia eu peço
no outro eu canto

num dia despeço
no outro eu tanto
num dia sucesso
no outro descanso

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

tum tum

eu tenho um coração
está confirmadíssimo
dia desses ele bateu todo errado

coração que não dispara não presta
é morto da silva
precisa de um susto